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Depois do choque a pergunta que ninguém faz: O que falha antes de um atentado acontecer?

Depois do choque a pergunta que ninguém faz: O que falha antes de um atentado acontecer?

Quando o ataque ocorre é sinal que o sistema falhou

O relato do professor brasileiro que passou horas escondido com seus alunos durante um ataque a uma escola no Canadá expôs mais do que o trauma de uma comunidade. Trouxe à tona uma questão estrutural: escolas estão, de fato, preparadas para enfrentar situações de violência extrema?


Embora o debate público costume se concentrar no controle de armas e na resposta policial, especialistas alertam que a prevenção começa muito antes da chegada das autoridades.

Para Sebastien Florens, especialista internacional em detecção de explosivos e segurança preventiva com mais de 25 anos de atuação em ambientes de alta complexidade na Europa, o principal problema está na ausência de cultura técnica permanente de segurança dentro das instituições. “Em muitos casos, protocolos existem no papel, mas não passam por validação prática contínua. Segurança é um processo, não um documento arquivado”, afirma.

Florens atuou por décadas em empresas privadas homologadas pelo Estado francês, em operações voltadas à proteção de infraestruturas sensíveis e grandes fluxos de pessoas. A França já adquiriu uma cultura de defesa contra ataques terroristas, tanto em locais públicos quanto privados, incluindo escolas e espaços esportivos. Esse contexto, segundo ele, moldou uma abordagem baseada em prevenção contínua, treinamento frequente e integração entre diferentes camadas de proteção.

Hoje, dedica-se à formação de cães de trabalho e à capacitação técnica de equipes voltadas à detecção e prevenção. Segundo ele, a maior vulnerabilidade de ambientes educacionais não está necessariamente na ausência de medidas, mas na falta de integração entre elas.


De acordo com o especialista, instituições de ensino deveriam adotar práticas semelhantes às de setores como aviação e grandes eventos internacionais, onde auditorias de risco e simulações periódicas são regra. “Lockdowns, rotas de evacuação, comunicação interna e definição clara de responsabilidades precisam ser treinados regularmente. A reação humana sob estresse só melhora com repetição orientada”, explica.


Ele destaca que professores e funcionários administrativos são parte essencial desse sistema de proteção. “Não se trata de transformar educadores em agentes de segurança, mas de capacitá-los para agir com clareza em cenários críticos.”


Embora o episódio no Canadá tenha envolvido arma de fogo, Florens observa que medidas preventivas complementares,c omo monitoramento comportamental, controle de acesso e equipes especializadas em detecção, reduzem significativamente riscos em diferentes tipos de ameaça.


Cães treinados para detecção de explosivos, por exemplo, são empregados em diversos países como camada adicional de proteção em locais de grande circulação. “Além da capacidade técnica de identificação, há um efeito dissuasivo importante. Ambientes com segurança visível reduzem oportunidades”, afirma.


Ainda assim, ele ressalta que não há solução isolada capaz de eliminar completamente o risco. “A segurança eficaz é construída em camadas. Tecnologia, treinamento, protocolo e cultura institucional precisam atuar juntos.”


O ataque no Canadá reforça um padrão observado em outros países: a comoção pública tende a gerar respostas emergenciais, mas nem sempre reformas estruturais duradouras.


Para Florens, o desafio é romper o ciclo reativo. “Segurança preventiva não é alarmismo nem militarização do ambiente escolar. É gestão de risco baseada em evidência.”
Ele defende que governos e redes de ensino estabeleçam avaliações técnicas periódicas e padronizadas, com acompanhamento independente. “O que está em jogo não é apenas a resposta a um ataque, mas a construção de um ambiente onde vulnerabilidades sejam identificadas antes que se transformem em tragédia”, conclui o especialista.

Sobre

Sebastien Florens é especialista internacional em detecção de explosivos com cães, com mais de 25 anos de experiência em segurança preventiva. De origem francesa, atuou em empresas privadas homologadas pelo Estado em ambientes de alta complexidade na Europa. Hoje, dedica-se à formação de cães de trabalho e à transmissão de conhecimento técnico, com foco em precisão, controle e validação contínua.

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