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Entre a aparência e o resultado, o falso equilíbrio do cessar-fogo

*André Frota

O cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã sugere, ao leitor apressado, uma conclusão simples: venceu a diplomacia. Convém desconfiar. Anunciado após dias de escalada da tensão na região, o acordo está longe de encerrar a disputa, apenas as suspendem, como quem fecha um livro sem marcar a página. Este é um deles. Sob a aparência de equilíbrio, esconde-se um ajuste desigual, discreto o bastante suficiente para não ofender as palavras, mas evidente para quem observa os movimentos.

O Irã, por exemplo, não caiu, não cedeu o essencial, não se deixou dobrar. Permanece de pé e, mais que isso, demonstrou algo que, em política internacional, vale tanto quanto uma vitória: a capacidade de impor custos ao adversário sem se expor ao colapso. O Estreito de Ormuz, que tantas vezes figurou como hipótese remota, tornou-se argumento concreto. Não foi fechado, é verdade, mas bastou insinuar-se como possibilidade para reorganizar o cálculo alheio. Há vitórias que não se proclamam; insinuam-se.

Os Estados Unidos, por sua vez, fizeram o que fazem as potências quando o caminho à frente se estreita: recuaram sem dar a impressão de recuar. Era preciso sair, mas sair bem, ou ao menos, não sair mal. E aqui entram as plateias domésticas, sempre exigentes. O ruído político, a pressão de segmentos associados ao MAGA, e a sombra das eleições de meio de mandato compõem um cenário em que a guerra externa não pode ser dissociada da disputa interna. Escalar demais seria arriscado; recuar demais, imperdoável. O cessar-fogo oferece uma terceira via: interrompe-se o movimento e chama-se isso de escolha.

Mas não são apenas dois os atores dessa cena. Israel, que aceitou o acordo, tratou de reposicionar suas peças. Ao deslocar seu esforço militar para o Líbano, não rompe o cessar-fogo, mas tampouco o transforma em repouso. Apenas muda o palco, preservando a lógica. A guerra, que não pôde continuar de um modo, prossegue de outro, como um rio que encontra nova margem quando lhe fecham o curso.

No meio disso tudo, surge o Paquistão, mediador conveniente, figura que não resolve, mas facilita. Não impõe termos, apenas ajuda a formulá-los de modo que possam ser aceitos. E a ambiguidade do acordo, longe de ser falha, é o que o sustenta. Cada parte lê o texto à sua maneira e, nessa leitura interessada, encontra razões para aceitá-lo.

Resta, então, o essencial. O que se estabeleceu não foi a paz, nem sequer uma trégua robusta, mas um equilíbrio instável, desses que dependem menos de convicções do que de circunstâncias. O Irã ganha espaço sem precisar dizê-lo. Os Estados Unidos saem sem precisar admiti-lo. Israel continua lutando sem parecer contrariar o acordo. E a guerra, que alguns julgariam encerrada, apenas aguarda, implacável, o momento em que a conta voltará a ser refeita.

*André Frota é professor de Relações Internacionais e Geografia do Centro Universitário Internacional – Uninter.

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