Culinária

A comida virou preocupação constante? Esse é um alerta para uma relação adoecida com a alimentação

Mesmo seguindo dietas saudáveis, culpa, medo de errar e necessidade excessiva de controle podem indicar uma relação disfuncional com a comida

Pensar na alimentação faz parte da rotina de qualquer pessoa. O problema surge quando a comida passa a ocupar espaço mental excessivo, gera culpa, medo e interfere na vida social e no bem-estar. Em uma época em que aplicativos contam calorias, influenciadores compartilham rotinas alimentares e a busca pelo corpo ideal ocupa cada vez mais espaço, especialistas alertam para um problema menos visível: a relação adoecida com a alimentação.

De acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria, estima-se que mais de 70 milhões de pessoas no mundo sejam afetadas por algum transtorno alimentar, incluindo anorexia, bulimia, compulsão alimentar e outros. Sobre essa questão, a nutricionista e psicóloga Flávia Lucena ressalta a importância de diferenciar os transtornos alimentares de sinais que podem indicar sofrimento na relação com a comida.

“Os transtornos alimentares são condições psiquiátricas complexas, com critérios clínicos específicos e origem multifatorial. Nem toda preocupação com a alimentação ou tentativa de controle alimentar configura um transtorno. Porém, quando pensamentos, emoções e atitudes ligadas à comida passam a gerar sofrimento ou prejuízos na vida da pessoa, é importante olhar para esses sinais com atenção”, afirma Flávia.

Nos últimos anos, a busca por hábitos saudáveis ganhou força nas redes sociais. Ao mesmo tempo, aumentou a exposição a conteúdos que associam valor pessoal à aparência física, à vigilância constante sobre a alimentação e à disciplina extrema. Para Flávia, esse cenário tem contribuído para a normalização de práticas que podem ser prejudiciais à saúde mental.

“Vivemos hoje em uma cultura que muitas vezes confunde rigidez com saúde, restrição com autocuidado e magreza com virtude. Muitas dessas condutas acabam sendo socialmente validadas e apresentadas como sinônimo de força de vontade e sucesso”, explica a especialista, que ressalta que nem toda pessoa que segue padrões alimentares considerados equilibrados mantém uma relação positiva com a comida.

O alerta surge quando a alimentação passa a ocupar espaço mental excessivo e começa a interferir na rotina, nos relacionamentos e no bem-estar. Entre os principais indícios de alerta estão:

  • Preocupação constante com comida e peso;
  • Necessidade de controle rígido sobre a alimentação;
  • Sofrimento intenso ao sair do planejamento;
  • Medo de determinados alimentos;
  • Exclusões alimentares sem necessidade clínica;
  • Dificuldade de participar de encontros sociais que envolvam comida;
  • Visão dicotômica entre alimentos “bons” e “ruins”;
  • Tentativas frequentes de compensação após comer.

Outro comportamento comum é a sensação de culpa após consumir determinados alimentos, seguida da necessidade de compensar por meio de restrições, exercícios excessivos ou outras estratégias para “corrigir” o que foi ingerido. Segundo a especialista, esse padrão pode revelar uma relação emocional fragilizada com a alimentação.

“Quando a pessoa sente culpa por comer, muitas vezes ela não está reagindo apenas ao alimento em si, mas ao significado que atribuiu àquele comportamento alimentar. A comida deixa de ser apenas comida e passa a funcionar como marcador de valor pessoal, controle, merecimento ou fracasso”, explica.

Para Flávia, parte da necessidade de compensação está relacionada ao modo de vida contemporâneo. Rotinas aceleradas, excesso de informações, comparação constante nas redes sociais, privação de sono e altos níveis de estresse fazem com que muitas pessoas percam a capacidade de perceber sinais básicos do próprio corpo, como fome, saciedade e necessidade de descanso.

“As pessoas foram ensinadas a confiar mais em regras externas do que em sinais internos. Elas aprendem o que deveriam comer, em que horário, em que quantidade, mas desaprendem a perceber o que o próprio organismo tem a dizer”, afirma.

O resultado é uma desconexão progressiva entre a forma de se alimentar e os sinais emitidos pelo próprio corpo. A fome deixa de ser escutada e passa a ser controlada. O corpo deixa de ser percebido e passa a ser monitorado.

Construir uma relação saudável com a alimentação vai muito além de seguir regras nutricionais. O verdadeiro cuidado alimentar deve incluir flexibilidade, confiança e uma relação menos punitiva com o próprio corpo.

“Não significa nunca mais comer além do planejado. Significa conseguir fazer ajustes sem entrar em guerra consigo mesma. Comer deveria ser um ato de cuidado, não um julgamento constante sobre quem somos”, conclui.

Sobre

Flávia Lucena é nutricionista e psicóloga, especialista em comportamento alimentar e criadora do Método Nutrição com Acolhimento®. Sua abordagem integra nutrição clínica funcional, psicologia comportamental e escuta aprofundada da relação das pessoas com a alimentação, promovendo uma visão que considera não apenas aspectos físicos, mas também emocionais, sociais e comportamentais do ato de comer. Atua com foco na construção de uma relação mais consciente, flexível e sustentável com a alimentação, auxiliando pacientes em diferentes fases da vida por meio de atendimentos presenciais e online.

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