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Por que empresas familiares precisam falar sobre sucessão antes que seja tarde

Por Felipe Oliveira

Existe uma conversa que muitas empresas familiares evitam por anos. Não porque seja pouco importante, mas porque exige lidar com temas delicados: envelhecimento, continuidade, poder e relações construídas ao longo de décadas. O problema é que a sucessão não acontece quando a família decide. Ela acontece quando a vida impõe.

Ao longo da minha atuação como contador e advogado especializado em tributação empresarial, aprendi que os maiores conflitos sucessórios raramente começam por uma questão tributária ou societária. Na maioria das vezes, eles nascem do silêncio. A família adia uma conversa necessária até que ela deixe de ser uma escolha e passe a ser uma urgência.

As empresas familiares responderam por cerca de 65% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e empregam aproximadamente 75% da força de trabalho do país, segundo dados do IBGE em parceria com o Sebrae (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística / Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas).

Ainda assim, é comum que a sucessão seja tratada apenas como uma etapa do planejamento patrimonial. Na prática, ela é muito mais do que isso. Significa preparar pessoas para assumir responsabilidades, estabelecer critérios claros para a gestão, fortalecer a governança e criar mecanismos capazes de evitar que conflitos familiares comprometam decisões empresariais.

Costumo dizer aos meus clientes que a sucessão começa muito antes da assinatura de qualquer documento. Ela começa quando a família consegue conversar sobre o futuro sem transformar esse tema em um tabu.

Adiar essa conversa tornou-se ainda mais arriscado diante das transformações do mercado. A 27ª CEO Survey da PwC revelou que 35% dos líderes de empresas familiares brasileiras acreditam que seus negócios podem deixar de ser viáveis na próxima década caso mantenham o modelo atual de funcionamento. O dado demonstra que preservar um legado depende não apenas da sucessão patrimonial, mas também da capacidade de preparar a empresa para acompanhar as mudanças do mercado (PWC BRASIL. 27ª CEO Survey – Destaques do segmento de empresas familiares no Brasil. São Paulo: PwC Brasil, 2024).

É justamente nesse ponto que vejo um dos equívocos mais frequentes. Muitas famílias confundem continuidade com permanência. Continuar um legado não significa repetir decisões tomadas no passado. Significa preservar valores enquanto a empresa evolui para responder a novos desafios.

Essa preparação também passa pelo diálogo entre diferentes gerações. A Pesquisa Global NextGen 2024, da PwC, mostra que 89% dos sucessores brasileiros acreditam que a inteligência artificial terá impacto significativo nos negócios da família, indicando que fundadores e herdeiros já enxergam o futuro por perspectivas diferentes. Antecipar essas conversas reduz conflitos e amplia as possibilidades de uma transição bem-sucedida (PWC BRASIL. Pesquisa Global NextGen 2024. São Paulo: PwC Brasil, 2024).

Não vejo essa diferença como um problema. Vejo como uma oportunidade. As novas gerações chegam às empresas trazendo outra visão sobre gestão, tecnologia, produtividade e relacionamento com o mercado. Quando existe espaço para diálogo, essas perspectivas se complementam. Quando não existe, o risco é transformar diferenças naturais em disputas desnecessárias.

Planejar a sucessão significa preparar a empresa para continuar crescendo independentemente de quem ocupa a liderança. É um processo que exige tempo, confiança e disposição para tomar decisões antes que elas sejam impostas pelas circunstâncias.

Depois de acompanhar tantas empresas familiares ao longo da minha carreira, cheguei a uma conclusão. Os negócios que atravessam gerações não são necessariamente aqueles que possuem o maior patrimônio ou a estrutura societária mais sofisticada. São aqueles que entenderam, no momento certo, que sucessão não é uma conversa sobre o futuro da empresa.

*Felipe Oliveira é contador, advogado e especialista em tributação empresarial. Atua na assessoria estratégica de empresas em planejamento tributário, compliance fiscal, estruturação societária e gestão de riscos, acompanhando os impactos regulatórios e as transformações promovidas pela reforma tributária brasileira.

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