
Fim da escala 6×1 transforma rotina e amplia qualidade de vida dos trabalhadores
Instituição mineira antecipa mudança que ainda tramita no congresso e reduz jornada de 44 para 40 horas semanais, apostando em mais equilíbrio entre trabalho, família e saúde.
Uma mudança que pode parecer pequena no relógio, mas que possui um peso significativo na rotina e saúde de muitos trabalhadores brasileiros: o fim da escala 6×1. A redução de quatro horas semanais, que busca ampliar o equilíbrio entre vida profissional e pessoal e fortalecer uma cultura organizacional voltada ao bem-estar ainda está em discussão no congresso, em meio a um debate que envolve os impactos sobre trabalhadores, empresas e organizações. Enquanto o tema avança no campo legislativo, o Instituto Ramacrisna, localizado em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, decidiu antecipar a mudança.
A alteração na carga horária trabalhista coloca a Instituição a frente de uma discussão que ganhou força país. Um estudo publicado em 2025 pela revista científica Nature Human Behaviour acompanhou 2.896 trabalhadores de 141 organizações em seis países durante uma experiência de redução da jornada. Os pesquisadores identificaram melhorias em burnout, satisfação profissional, saúde mental e saúde física, além de redução de problemas relacionados ao sono e à fadiga.
Os resultados brasileiros também apontam nessa direção. No primeiro piloto coordenado pela 4 Day Week Brazil, organizações que participaram da experiência de redução do tempo de trabalho registraram, entre os indicadores divulgados, 87% de trabalhadores relatando mais energia para realizar as tarefas, 60% apontando melhora no engajamento e 44% percebendo melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
A coordenadora de comunicação do Instituto Ramacrisna, Gabriella Prado, é um exemplo do impacto positivo desta mudança. Mãe de Lucas, de 6 anos, e Matheus, de 3, ela conta que a nova jornada muda uma dinâmica familiar que estava diretamente relacionada ao horário de trabalho.
Antes, em virtude da jornada de 44 horas, cabia principalmente ao pai das crianças a tarefa de levar e buscar os filhos na escola, por exemplo. A rotina também dificultava a participação de Gabriella em compromissos importantes do filho mais velho, que é uma criança atípica e possui uma rotina que inclui consultas médicas e terapias. “Parece que são poucas horas, mas, para quem tem filhos pequenos, como eu, faz muita diferença. Antes, eu dependia muito do apoio do meu marido para conseguir organizar a rotina das crianças. Agora, consigo estar presente em momentos que antes eu perdia”, relata Gabriella.
A mudança também abriu espaço para que ela olhasse para as próprias necessidades. Gabriella já começou a planejar uma nova rotina de cuidados pessoais e está procurando uma atividade física para incorporar ao dia a dia. “Eu também comecei a pensar mais em mim. Quero cuidar da minha saúde, fazer uma atividade física, ter um tempo de qualidade com a minha família e, principalmente, estar mais presente na rotina dos meus filhos. É uma mudança que vai muito além do trabalho”, afirma.
Para a coordenadora de Recursos Humanos do Ramacrisna, Aline Michelle, a implantação da nova jornada é resultado de um processo de planejamento e de uma decisão institucional que coloca as pessoas no centro das estratégias de gestão. “Essa mudança foi pensada com muito cuidado e planejamento. Ela faz parte da estratégia de gestão adotada pelo Ramacrisna em consonância com o FIB. Não estamos falando apenas de reduzir horas de trabalho, mas de repensar a relação das pessoas com o trabalho e com o tempo. Esperamos que essa nova jornada contribua para mais equilíbrio, bem-estar, motivação e qualidade de vida para os nossos colaboradores”, explica.
Segundo Aline, a expectativa é que os reflexos positivos também sejam percebidos no ambiente organizacional. “Quando uma pessoa consegue conciliar melhor o trabalho com a família, com a saúde, com o descanso e com seus projetos pessoais, ela tende a estar mais satisfeita e mais presente. Queremos construir um ambiente em que as pessoas se sintam valorizadas e percebam que o cuidado com elas também é uma prioridade da Instituição. ”, conclui.
Redução da jornada e Certificação de Felicidade Interna Bruta (FIB)
A mudança ocorre em um momento especialmente simbólico para o Instituto, que recentemente recebeu a Certificação de Felicidade Interna Bruta (FIB), concedida pelo governo do Butão. O reconhecimento considera o bem-estar como um dos pilares para o desenvolvimento das organizações e se conecta a uma visão que vem sendo incorporada pelo Ramacrisna em suas práticas de gestão. A instituição também trabalha com os princípios do ESG, buscando integrar responsabilidade social, sustentabilidade e boas práticas de governança à sua atuação.
Para o Ramacrisna, a certificação recebida do governo do Butão não representa apenas um reconhecimento, mas também um compromisso de continuar colocando esses princípios em prática. “Para nós, a certificação FIB representa também um compromisso. Não basta falar sobre felicidade e bem-estar; precisamos transformar esses conceitos em práticas. A mudança da jornada é uma delas”, destaca Aline.



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