
IA, confiança e reputação pautam novo cenário da comunicação na América Latina
Cúpula Latino-Americana, realizada em Buenos Aires, reuniu mais de 450 profissionais e colocou em discussão mudanças que já afetam empresas e marcas brasileiras, como inteligência artificial, reputação, transformação da mídia, propósito e novas relações com os públicos

São Paulo, setembro de 2026 – A inteligência artificial está acelerando processos e multiplicando a capacidade de produção de conteúdo, mas o futuro da comunicação deverá depender cada vez mais da combinação entre tecnologia e atributos essencialmente humanos, como confiança, capacidade de julgamento, escuta, empatia e construção de relacionamentos. Essa foi uma das principais discussões da VI Cúpula Latino-Americana de Relações Públicas e Comunicação Estratégica, realizada nos dias 4 e 5 de setembro, em Buenos Aires, com mais de 450 participantes, entre presenciais e online. O encontro reuniu especialistas de diferentes países para discutir transformações que já impactam diretamente empresas, marcas, agências e profissionais brasileiros: inteligência artificial, reputação, propósito, sustentabilidade, comunicação interna, transformação da mídia, relacionamento com públicos e mudanças no papel dos próprios comunicadores.
Para Antonio Ezequiel Di Génova, presidente da REDIRP (Rede Iberoamericana de Relaciones Públicas) e do ILCE (Instituto Latinoamericano de Comunicación Estratégica), entidades organizadoras da Cúpula, o encontro mostrou que o avanço tecnológico não elimina a dimensão essencialmente relacional da comunicação. “Toda a parte acadêmica e técnica da Cúpula foi feita de uma maneira muito humana. O objetivo é justamente gerar união, relacionamento, encontrar diversidade de pontos de vista e reflexões interessantes”, afirmou.
A relação entre tecnologia e competências humanas foi também o tema da palestra de Di Génova, que abriu a programação acadêmica. Ele colocou lado a lado Inteligência Artificial (IA) e Inteligência Emocional (IE) para defender que o profissional de comunicação precisará saber operar nos dois campos. Enquanto a IA amplia velocidade, escala, capacidade analítica e automação, competências como empatia, julgamento, escuta e construção de vínculos continuam essencialmente ligadas à dimensão humana. “O futuro das Relações Públicas e da Comunicação não será exclusivamente digital nem exclusivamente humano: será híbrido”, resumiu Di Génova. A orientação apresentada por ele foi igualmente direta: “automatizar processos, não desumanizar relações”. A discussão iniciada por Di Génova encontrou desdobramentos em diferentes apresentações. Desde o uso de IA com governança e integração estratégica, passando pela confiança como “o novo capital das Relações Públicas com propósito”. Em um ambiente de abundância de informação e conteúdo produzido em escala, reputação e credibilidade tendem a funcionar cada vez mais como elementos de diferenciação.
Novas relações com a imprensa, IA e transformações na comunicação
O Brasil participou da programação com uma discussão sobre as transformações nas relações entre empresas, imprensa e audiências e ganhou espaço também no debate sobre maior integração profissional e econômica com os demais países latino-americanos. Para Regina Valente, jornalista e relações públicas, diretora da REDIRP e do ILCE no Brasil – e palestrante no evento – a discussão tem impacto direto sobre a maneira como empresas e marcas brasileiras precisarão pensar sua comunicação.
Nesse sentido, as transformações nas relações com a imprensa ganharam destaque, especialmente nos dias atuais, em que jornalistas deixaram de produzir apenas para os veículos aos quais estão vinculados e passaram a construir audiências próprias em redes sociais, podcasts, newsletters, canais de vídeo e outros formatos. Ao mesmo tempo, empresas criaram seus próprios canais, executivos tornaram-se produtores de conteúdo, creators passaram a disputar influência e ferramentas de IA começaram a selecionar, resumir e recomendar informação.
“Há uma discussão muito grande sobre o que a IA vai substituir na comunicação, mas talvez a pergunta mais interessante seja o que ela está tornando ainda mais valioso. Quando produzir conteúdo se torna mais acessível, ganham importância a confiança, a credibilidade, o contexto, a capacidade de fazer boas perguntas e, principalmente, a coerência entre aquilo que uma organização diz e aquilo que efetivamente faz”, afirma Regina, que também é sócia-fundadora da Casa Valente Comunicação.
Para a jornalista, “uma empresa pode criar um excelente canal, produzir vídeos, artigos, pesquisas e conversar diretamente com seus públicos. O que ela não consegue é validar a si mesma. É por isso que a imprensa sempre terá um papel fundamental na construção de autoridade e reputação”.
A mudança também afeta a relação entre assessorias de imprensa e redações. Se ferramentas generativas são capazes de produzir textos básicos em segundos, pautas baseadas apenas em informações facilmente disponíveis tendem a perder valor. Dados proprietários, acesso a fontes e personagens, experiências reais, conhecimento especializado, contexto e histórias humanas passam a ter maior capacidade de diferenciação. “Para quem trabalha com assessoria, surge uma pergunta muito prática: o que esta pauta oferece que uma IA não conseguiria produzir sozinha? As redações não necessariamente precisarão de mais conteúdo. Provavelmente, precisarão de mais relevância”, acrescenta Regina.
Comunicação, a ponte entre Brasil e América Latina
A aproximação regional também ganhou espaço na programação. Federico Antonio Servideo, presidente da Câmara Argentino-Brasileira de Comércio de São Paulo (CAMARBRA), discutiu como as diferenças culturais interferem inclusive nas relações empresariais entre Brasil e Argentina. Segundo ele, enquanto a comunicação argentina tende a ser mais direta e assertiva, brasileiros costumam recorrer mais à construção de harmonia e a formas indiretas de negociação. “Nesse contexto, a inteligência cultural passa a fazer parte da comunicação estratégica, especialmente para empresas que pretendem atuar em diferentes mercados da região”, acrescentou.
A participação brasileira na Cúpula também contou com o apoio institucional do Conselho Regional de Relações Públicas da 2ª Região (SP/PR).
Di Génova destacou o interesse em ampliar a interação com o mercado brasileiro por meio da participação em eventos, produção conjunta de conhecimento e intercâmbio entre profissionais. “Queremos exportar estas experiências ao Brasil e também participar das discussões brasileiras, representando a rede em eventos organizados no país. Vamos dando passos e avançando, e assim crescemos juntos”, afirmou.
Para Regina Valente, essa aproximação abre uma discussão maior sobre o lugar que a própria América Latina ocupa entre as referências do mercado brasileiro de comunicação. “O Brasil tem um mercado de comunicação grande, maduro e com características próprias. Ao mesmo tempo, nossos vizinhos enfrentam problemas muito parecidos com os nossos de desinformação, reputação, transformação da mídia, confiança, e estão produzindo conhecimento e experiências que pouco circulam por aqui. Se temos tantos desafios em comum, por que ainda compartilhamos tão pouco conhecimento e experiências que estão do outro lado de nossas fronteiras? Talvez seja a hora de o Brasil olhar mais para a América Latina e também compartilhar mais do que produzimos aqui”, conclui.
Sobre a REDIRP e a Cúpula Latino-Americana
A REDIRP – Red Iberoamericana de Profesionales en Relaciones Públicas é uma rede criada em 2012 para promover integração, intercâmbio de conhecimento e desenvolvimento profissional entre especialistas em Relações Públicas e Comunicação da Ibero-América. Atua como espaço de diálogo, formação e produção de conhecimento, estimulando uma prática profissional responsável, ética e fundamentada, além da aproximação entre profissionais, academia, empresas e entidades da região. A rede mantém representações em diferentes países e também desenvolve atividades acadêmicas por meio do ILCE – Instituto Latinoamericano de Comunicación Estratégica. Uma de suas principais iniciativas é a Cumbre Latinoamericana de Relaciones Públicas y Comunicación Estratégica (Cúpula Latino-Americana de Relações Públicas e Comunicação Estratégica), encontro anual e itinerante que reúne profissionais e especialistas de diferentes países para debater tendências e desafios da comunicação. Ao longo de suas seis edições, a Cúpula já teve etapas realizadas em diferentes mercados latinos, incluindo México, Costa Rica, Honduras e Argentina, além de eventos e simpósios em outros países da região. A VI edição, realizada em Buenos Aires nos dias 4 e 5 de setembro de 2026, reuniu mais de 450 participantes e recebeu da Legislatura da Cidade Autônoma de Buenos Aires a declaração de evento de interesse cultural e institucional para a região. A próxima edição será realizada em setembro de 2027, na República Dominicana.
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