
Proteger florestas existentes produz melhor custo-benefício para biodiversidade e clima do que restaurar, revela estudo na Science
Pesquisa feita em mais de 3 milhões de hectares da Amazônia mostra que restaurar áreas já desmatadas, como abordagem isolada, é insuficiente para reverter perdas. Pesquisadores concluíram que a combinação entre proteção e restauração das florestas produz mais benefícios para a biodiversidade e para o clima.

Uma árvore solitária permanece de pé enquanto a floresta ao redor é derrubada na Floresta Nacional do Tapajós, uma área protegida da Amazônia brasileira. A imagem representa o cenário de desmatamento avaliado no estudo. Crédito da foto: Marizilda Cruppe.
Evitar o desmatamento e a degradação das florestas tropicais gera mais benefícios para a biodiversidade e o clima por recurso investido do que apenas restaurar áreas já convertidas, segundo estudo publicado na revista Science nesta quinta-feira (17). A pesquisa comparou os resultados e os custos de três principais estratégias de conservação florestal: conter o desmatamento, evitar danos provocados por incêndios e extração de madeira, e restaurar a vegetação para cumprir o Código Florestal. A estratégia que une proteção e restauração é a que produz mais benefícios para a biodiversidade e para o clima.
O estudo foi realizado por um grupo internacional de 19 pesquisadores, liderado pela Rede Amazônia Sustentável (RAS), e reúne especialistas de instituições como a Universidade de Lancaster, a Embrapa Amazônia Oriental, o Instituto Ambiental de Estocolmo (SEI), as universidades de Oxford, Cambridge e Manchester Metropolitan, Exeter, a Esalq/USP, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Museu Paraense Emílio Goeldi. A análise abrangeu Paragominas e Santarém, no Pará, duas regiões da fronteira agrícola amazônica que somam mais de 3 milhões de hectares.
Os pesquisadores combinaram dados de biodiversidade coletados em 381 áreas de amostragem, distribuídas por 38 microbacias, além de informações socioeconômicas de entrevistas em 499 propriedades rurais e imagens de satélite de alta resolução. A partir dessa base, reconstruíram as mudanças ocorridas entre 2010 e 2020, simulando o que teria acontecido em diferentes cenários se cada estratégia tivesse sido adotada individualmente ou em conjunto.
Os resultados mostram que evitar incêndios e extração de madeira teria mitigado 68% das perdas de biodiversidade e 47% das perdas de carbono observadas. Impedir o desmatamento teria evitado 28% das perdas de biodiversidade e 61% das perdas de carbono. Já a restauração, quando adotada isoladamente, compensaria apenas 6% e 15% dessas perdas, respectivamente.
“Uma floresta não está necessariamente protegida apenas porque continua aparecendo como floresta nas imagens. Incêndios, exploração de madeira e efeitos de borda podem retirar biodiversidade e carbono sem eliminar completamente a cobertura florestal. Essa degradação precisa ocupar um lugar muito mais central nas políticas de conservação”, afirma Jos Barlow, professor da Universidade de Lancaster e autor sênior do estudo.
A dimensão do problema aparece nos dados da própria região. Durante o período analisado, foram registrados 159 mil hectares de desmatamento e 274 mil hectares de florestas primárias atingidas por fogo ou extração de madeira. Outros 130 mil hectares passaram por regeneração, mas 63% dessas florestas secundárias voltaram a ser afetadas pelo fogo. Para os autores, o resultado evidencia os limites de recuperar a vegetação sem controlar simultaneamente as causas de sua destruição.
“A restauração é indispensável para recompor áreas protegidas, conectar fragmentos e recuperar funções ecológicas”, explica Leonardo de Sousa Miranda, pesquisador da Universidade de Lancaster e um dos autores principais do artigo. “O estudo mostra, porém, que ela não consegue compensar sozinha as perdas enquanto o desmatamento e a degradação continuam avançando. Restaurar sem proteger é tentar repor continuamente algo que segue sendo destruído.”
A diferença entre as estratégias aumentou quando os pesquisadores incluíram seus custos econômicos. Para a biodiversidade, evitar perturbações florestais apresentou um índice médio de custo-efetividade cerca de três vezes maior do que o de impedir o desmatamento e quase 15 vezes superior ao da restauração. Para o carbono, evitar o desmatamento apresentou o maior retorno, seguido pelo controle da degradação e pela restauração. Mesmo quando os custos de restaurar foram reduzidos em até 95% nas simulações, a estratégia permaneceu menos custo-efetiva do que as medidas preventivas.
Isso não significa, contudo, que a restauração deva ser abandonada. Os maiores benefícios foram alcançados quando as três estratégias apareceram combinadas. Nesse cenário, a biodiversidade aumentaria 22% e os estoques de carbono 42% em relação ao patamar de 2010. A interação entre as medidas potencializa os resultados, já que florestas preservadas favorecem a recuperação de áreas próximas, enquanto o controle do fogo permite que a vegetação em regeneração sobreviva e amadureça.
“Não existe uma única solução capaz de responder à crise das florestas tropicais. Precisamos proteger as áreas remanescentes, impedir que elas sejam degradadas e restaurar territórios estratégicos”, reforça Joice Ferreira, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental e também uma das autoras da pesquisa. Investir somente em restauração faz pouco sentido enquanto florestas maduras continuam a ser degradadas. É necessário integrar as agendas, por exemplo, incluindo brigadas para evitar incêndios nos projetos e programas de restauração. “O estudo oferece uma base para decidir onde e como combinar as diferentes ações de maneira eficiente.”
As conclusões ampliam o foco tradicional das políticas florestais, historicamente concentradas no desmatamento e, mais recentemente, na restauração. Os autores defendem que prevenir incêndios e extração ilegal de madeira, garantir que a exploração de madeira autorizada cumpra as regras de manejo sustentável, reduzir o uso do fogo em áreas rurais, sempre que possível, e fortalecer brigadas locais se tornem parte central das estratégias de clima e biodiversidade.
No Brasil, os resultados dialogam com o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) e a aplicação do Código Florestal. Também podem orientar programas de REDD+, projetos dos mercados de carbono e decisões sobre financiamento climático, ao mostrar que recursos voltados à restauração produzem menos resultado quando não são acompanhados de investimentos para proteger as florestas existentes.
“Em termos internacionais, é necessário que as empresas e os mercados que se beneficiam de commodities, como soja e carne bovina, assumam a responsabilidade não apenas pelo desmatamento, mas também pela degradação das florestas remanescentes, que está intrinsecamente ligada a esses sistemas de produção na Amazônia”, afirmou o Dr. Toby Gardner, coautor, pesquisador sênior do Stockholm Environment Institute e cofundador da Trase, uma iniciativa de sustentabilidade em cadeias de suprimentos.
Embora concentrado em duas regiões da Amazônia Oriental, o estudo apresenta implicações para outras florestas tropicais submetidas simultaneamente ao desmatamento, ao fogo, à exploração de madeira e à expansão agropecuária. Nessas paisagens, acompanhar apenas a perda total de cobertura vegetal pode esconder uma parcela decisiva dos impactos sobre a biodiversidade e o clima.
Sobre a Rede Amazônia Sustentável (RAS)
Os principais autores do estudo integram a Rede Amazônia Sustentável (RAS). A RAS foi criada em 2009 e é composta por mais de 30 instituições do Brasil e do exterior e é coordenada por: Embrapa Amazônia Oriental (Brasil); Universidade de Lancaster, Universidade de Oxford e Universidade Metropolitana de Manchester (Reino Unido). Mais de 100 pesquisadores e estudantes integram a RAS, com atuação em diferentes linhas de pesquisa e foco em produzir evidências científicas a partir de dados sociais, econômicos e ambientais voltados para o uso da terra, a conservação de florestas e o desenvolvimento sustentável da região amazônica. Visite o site: https://www.ras-network.org/
Este estudo foi financiado por fontes que incluem o Global Centre on Biodiversity for Climate do Reino Unido e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) do Brasil.
Sobre a Ambiental Media
No Brasil, a divulgação do estudo tem o apoio da Ambiental Media, organização de jornalismo investigativo baseado em ciência e dados. Fundada em 2016, a Ambiental produz conhecimento, incide em políticas públicas e é referência para veículos, jornalistas e criadores de conteúdo que cobrem a agenda ambiental brasileira. Em maio de 2026, o projeto Cerrado: O Elo Sagrado das Águas do Brasil foi um dos dez vencedores do Sigma Awards, a mais importante premiação mundial de jornalismo de dados, com 543 inscrições de 84 países. A Ambiental foi a única redação brasileira reconhecida, ao lado de veículos como Reuters, The Guardian e New York Times. No mesmo ano, o projeto ficou em segundo lugar no Society of Environmental Journalists Awards 2026, dos EUA, e atualmente é finalista do Online Journalism Awards, promovido pela Online News Association. A plataforma também foi apresentada ao Ministério do Meio Ambiente (MMA) e contribuiu para o debate sobre a criação das Áreas Prioritárias para Recarga Hídrica no Cerrado (APRHIC). O trabalho ainda foi apresentado em três sessões durante a COP30, repercutiu em 80 veículos brasileiros (incluindo Folha de São Paulo, TV Globo, CNN e outros) e viralizou nas redes, com um único vídeo atingindo mais de 1,2 milhão de visualizações orgânicas. Visite o site: https://ambiental.media.




