
Jovens de Cariacica produzem memória sobre a Estrada de Ferro Vitória a Minas em oficinas de fotografia e HQs
Atividades são resultado do Projeto Viagem Capixaba, que já realizou mais de 60 oficinas formativas ao longo do ano de 2026, voltadas para estudantes de escolas públicas localizadas próximas à ferrovia

Aluna do 9º ano da EEEFM João Crisóstomo Belesa, Sophia Nascimento Knack nunca havia parado para contemplar a paisagem e os atrativos do território onde mora, em Porto de Santana, um dos bairros de Cariacica atravessados pela Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM). Por meio da oficina de fotografia do Projeto Viagem Capixaba, realizada entre os últimos dias 14 e 18 de setembro, a adolescente de 14 anos teve a oportunidade de registrar o dia a dia da região e de produzir memória ferroviária a partir do olhar sobre situações que, para ela, muitas vezes passavam despercebidas.
“Meu olhar mudou bastante sobre Porto de Santana porque tive mais acesso à história do bairro. Muitas pessoas não conhecem a história de onde elas moram, e a oficina me ajudou a mudar esse olhar”, revela a estudante.
Uma iniciativa da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), viabilizada por meio dos Recursos para Preservação da Memória Ferroviária (RPMF), com realização do Instituto Com.Chá, em articulação e parceria com a Vale, o Projeto “Viagem Capixaba” realizou mais de 60 oficinas formativas ao longo do ano de 2026, voltadas para estudantes de escolas públicas localizadas próximas à ferrovia.
As atividades giram em torno de quatro linguagens criativas – Podcast, Composição Musical, Fotografia e Roteiro e Criação de Personagens para Histórias em Quadrinhos (HQ).
Cada oficina tem 20 horas de imersão e compreende cinco dias de protagonismo colaborativo dos estudantes, por meio de experiências práticas e criações coletivas que geram narrativas sobre memória, comunidade e segurança. Ao final de cada ciclo de oficinas, os participantes do projeto são convidados a fazer uma viagem cultural de trem onde têm a oportunidade de contemplar a paisagem do território onde moram a partir de um novo ângulo.
Fotografia
Na escola João Crisóstomo Belesa, cerca de 150 estudantes foram apresentados à arte da fotografia durante as atividades conduzidas pela fotógrafa Vikki Dessaune. Segundo a oficineira, a maioria da turma teve o primeiro contato com a câmera fotográfica por meio da oficina.
O cronograma de aulas incluiu uma atividade externa onde os alunos puderam fotografar as nuances do bairro de acordo com a sua sensibilidade. Sophia, por exemplo, registrou o contraste produzido entre uma poça dágua e os elementos da natureza. Ela gostou tanto da experiência que já planeja fazer o curso de graduação em cinema ou jornalismo. “Gosto bastante de fotografar e de escrever, então são duas áreas que me interessam bastante”, comenta.
Outros alunos fizeram fotos de igrejas, creches e espaços abandonados. Yasmin Siqueira de Mello, de 14 anos, optou por registrar a plasticidade do conjunto de árvores da região. “A oficina me ajudou nesse exercício de olhar com mais cuidado e mais calma para o lugar onde moro. Gostei das fotos que produzi”, afirma.
Histórias em Quadrinhos
Por sua vez, os participantes da oficina de Roteiro e Criação de Personagens para Histórias em Quadrinhos (HQ) foram estimulados a criar histórias curtas, com até três páginas, ou tiras em quadrinhos, produzidas coletivamente pelos estudantes. O material teve como inspiração a memória ferroviária e a segurança, juntamente com as vivências pessoais de cada um dos participantes, sob a orientação do artista gráfico, escritor, roteirista e ilustrador Arabson de Assis.
Aluno do 9º ano, Samuel Gomes Cardoso, 14, ficou entusiasmado com os conhecimentos assimilados durante a oficina. A turma optou por criar uma história de gatos super-heróis, com a participação de Samuel na construção do roteiro. “Buscamos inspiração no que cada um gosta: alguns alunos gostam de gatos, outros de anime e a partir dessas ideias criamos uma história de gatos heróis que têm a missão de salvar dois gatinhos que ficaram presos no trem”, descreve.
Já Miguel Henrique Paixão do Nascimento, de 15 anos, participou ativamente da criação de uma história em quadrinhos com roteiro sobre vôlei, espaço e trens. “No meu grupo fiquei responsável por desenhar as tirinhas e produzir imagens. Foi minha primeira experiência em uma oficina e achei o máximo. Passei a olhar com mais atenção para a região e fico muito feliz e orgulhoso por morar perto da ferrovia”, pontua.
Segurança nos trilhos
A valorização da segurança nas áreas próximas aos trilhos é um dos tópicos que estão no DNA do Projeto Viagem Capixaba, conforme destaca a coordenadora Carolina Castilholi. “A iniciativa visa ampliar o diálogo sobre segurança ferroviária, estimulando práticas de cuidado coletivo e também de preservação individual, de modo que moradores, estudantes e usuários do território possam compreender melhor os riscos e as responsabilidades envolvidas na convivência com a ferrovia”, observa a coordenadora.
- NÚMEROS DO PROJETO VIAGEM CAPIXABA:
Duração de 4 anos em ciclos anuais
65 oficinas realizadas até setembro de 2026
13 viagens de trem realizadas até setembro de 2026, partindo da Estação Pedro Nolasco
17 viagens culturais de trem para o trecho entre Cariacica e Serra, previstas até o fim do ano
Mais de 1800 participantes até setembro de 2026
Produção de acervo imaterial vivo, contemplando até 10.200 participantes ao longo dos quatro anos
SIGA NAS REDES:
Instagram: @projeto_viagemcapixaba


