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Como a mente humana Cria um vilão sob demanda em reality shows

Estratégias para vencer podem necessitar que participantes abandonem valores morais para desenvolver persona que se adapte ao jogo

Coloque um ser humano em um ambiente de escassez, vigilância e alta pressão como o confinamento de um grande reality show  e observe o que acontece com a sua identidade. Em poucas horas, a máscara social que usamos no dia a dia racha. Mas o que acontece quando alguém decide vestir voluntariamente a armadura do antagonista? Quando a pessoa não apenas aceita o papel de vilão, mas o desenha com precisão cirúrgica, sabendo perfeitamente que o Brasil inteiro vai odiá-la na segunda-feira?

Para o público, a persona que manipula, blefa e tensiona o jogo é real. Mas para a neurociência e a psicologia comportamental, o “vilão” de reality show é, na verdade, um dos estudos de caso mais fascinantes sobre a maleabilidade do ego e a capacidade camaleônica da mente humana.

Afinal, como é possível ligar uma chave mental, desligar a empatia natural e criar do zero uma personalidade fria e estratégica para sobreviver a um jogo?  O hipnoterapeuta Gui Alves e a analista de customer success Gabi Souza vivenciaram esta experiência ao assumirem o papel de estrategistas nas telas do reality show do Globoplay, Herança em Jogo, e para os participantes, a construção de um personagem sob os holofotes exige um trabalho de dissociação psicológica. “A criação de uma persona de vilão não surge de uma maldade inerente, mas de uma lucidez. Você olha para ojogo, entende as regras do sistema e percebe que a bondade convencional é um atalho para a eliminação. O cérebro humano é perfeitamente capaz de construir uma subpersonalidade funcional do zero, uma espécie de armadura psicológica, desde que você saiba exatamente o que está fazendo.”, aponta Gui Alves.
“O perigo não está em interpretar um papel, mas em esquecer onde você deixou a chave para sair dele quandoo programa acaba. Na vida real, não sou uma pessoa que mente ou trai mas, dentro de um jogo em que essas atitudes fazem parte da estratégia, preciso acessar uma versão de mim capaz de fazer o que eu normalmente não faria”, afirma Gabi.

A psicologia social estuda há décadas a chamada Teoria da Autopromoção e os Papéis Sociais (popularizada por teóricos como Erving Goffman). Nós não somos uma identidade única e rígida; nós somos um repertório de personas. No dia a dia, vestimos o papel de profissional competente, de amigo acolhedor, de filho atencioso. No entanto, em um ambiente de confinamento extrema, o cérebro percebe que o “eu” original, aquele que busca aprovação, que sente culpa e que quer ser amado, pode ser uma fraqueza tática. É aí que o sistema de sobrevivência entra em ação e permite a criação da persona antagônica.

O grande fascínio por trás de quem assume conscientemente o papel de vilão está justamente no contraste entre o personagem construído para o jogo e a pessoa que existe fora dele já que longe das câmeras, alguém capaz de ocupar esse lugar pode ser exatamente o oposto daquilo que demonstra no reality: analítico, atento ao comportamento humano e, muitas vezes, acostumado ao acolhimento e à empatia.O problema é que a mente não necessariamente atravessa essa fronteira entre personagem e realidade sem algum custo: Sustentar por dias um comportamento que entra em conflito com valores pessoais exige esforço psicológico.

Mentir quando se valoriza a honestidade, romper alianças depois de criar vínculos ou agir com frieza diante de alguém por quem se desenvolveu afeto pode produzir uma tensão interna significativa e em um ambiente que já envolve confinamento, vigilância constante, competição, privação de espaço pessoal e incerteza, essa contradição pode ampliar a resposta ao estresse fazendo com que o organismo permaneça em estado de alerta, mobilizando mecanismos fisiológicos que incluem a liberação de cortisol e outros mediadores do estresse.

“Além do estresse gerado no jogo, existe a chateação com críticas e ofensas geradas pelo público principalmente pelo fato de que, escondidos atrás de um celular, todos tem coragem para atacar sem filtro” afirma Gabi Souza.

“Realities precisam de uma boa narrativa e o vilão, o imoral, o antagonista tem que existir. Eu e a Gabi só decidimos colocar o tempero para ajudar o reality Herança em Jogo ser uma experiência incrível” disse Gui Alves.

No fim das contas, a criação do “vilão” nos lembra algo assustador sobre nós mesmos: a nossa identidade é maleável, moldável e adaptável ao local que decidirmos habitar mas a grande questão não é saber o que alguém é capaz de fazer quando o mundo aplaude, mas quem essa pessoa decide ser no silêncio do quarto, quando ninguém mais está vendo.

Participantes do reality Herança em Jogo

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