GeralSaúde

A estética do sorriso entrou no excesso

*Por André Girotto

Por muito tempo, o sorriso ideal foi associado à saúde. Hoje, ele passou a ser associado a uma estética quase irreal. Nos últimos anos, tenho observado um crescimento consistente na busca por dentes cada vez mais brancos, mais alinhados e mais uniformes. Não se trata apenas de cuidado, em muitos casos, trata-se de padronização.

Dados do Conselho Federal de Odontologia indicam que o Brasil figura entre os países com maior número de cirurgiões-dentistas no mundo, com forte presença da odontologia estética no mercado. Esse crescimento acompanha uma demanda impulsionada por redes sociais, filtros digitais e uma nova percepção de imagem pessoal, em que o sorriso passou a ocupar papel central na construção da identidade.

O problema não está no desejo de melhorar a aparência. Ele começa quando o conceito de naturalidade deixa de ser referência. Tenho recebido, com frequência crescente, pacientes que não pedem um sorriso saudável. Pedem um sorriso branco. E não qualquer branco, é aquele que viram em alguém, em uma foto, em um vídeo, muitas vezes sem considerar características individuais como tom de pele, formato do rosto ou até a própria estrutura dentária. A estética, nesse ponto, deixa de ser construção e passa a ser reprodução.

Existe hoje uma tendência clara de uniformização. Dentes extremamente claros, opacos, sem variação de tonalidade, acabam criando um efeito artificial que, ao contrário do esperado, chama mais atenção do que um sorriso natural. O que antes era associado a cuidado passa a ser percebido como excesso.

Esse movimento não acontece por acaso. Nos últimos anos, a odontologia estética tem crescido significativamente no Brasil, com alta demanda por procedimentos como clareamento e facetas, conforme dados de mercado, acompanhando a valorização da imagem em ambientes digitais. O sorriso, nesse contexto, tornou-se um dos principais elementos de exposição.

Mas existe uma linha tênue entre estética e descaracterização. O dente natural não é completamente branco. Ele possui translucidez, nuances, pequenas variações que dão profundidade e autenticidade ao sorriso. Quando esse aspecto é ignorado, o resultado pode até atender a um padrão momentâneo, mas dificilmente sustenta naturalidade ao longo do tempo.

Mais do que uma questão visual, esse excesso também levanta um ponto clínico importante. Procedimentos repetitivos ou mal indicados, como clareamentos em sequência ou intervenções restauradoras desnecessárias, podem comprometer a estrutura dental. A busca pelo branco absoluto, quando não bem orientada, deixa de ser estética e passa a ser risco.

Ao longo da minha prática, passei a entender que o papel do profissional não é apenas executar um procedimento, mas traduzir expectativa em resultado possível. Nem todo pedido deve ser atendido da forma como chega. Muitas vezes, ele precisa ser reinterpretado.

Quando um paciente pede um sorriso mais branco, raramente ele está falando apenas de cor. Ele está falando de autoestima, de presença, de como deseja ser percebido. A questão é como transformar isso em algo que respeite identidade e proporção. O sorriso mais bonito não é o mais branco, é o que faz sentido no rosto de quem o carrega.

Talvez o movimento mais interessante que começa a surgir agora seja justamente o contrário do excesso. Uma valorização maior do natural, do equilíbrio, da estética que não grita. Ainda é sutil, mas já perceptível em consultório.

Depois de anos perseguindo um padrão, algumas pessoas começam a perceber que a verdadeira sofisticação está em não parecer artificial. E isso muda tudo.

*André Girotto é cirurgião-dentista com 27 anos de experiência clínica, especialista em Ortopedia Funcional dos Maxilares pelo Conselho Federal de Odontologia e pós-graduado em Administração Hospitalar e Sistemas de Saúde pela FGV. Atua com reabilitação neuro-oclusal, ortodontia e odontologia digital.

Imagens relacionadas


Reprodução internet
baixar em alta resolução

Deixe um comentário