Com salto de 23% de incêndios em instalações elétricas, especialistas alertam riscos na ampliação de carga sem adequar quadros elétricos

Estudo da Abracopel revela que a falta de modernização das instalações é a principal causa de perdas patrimoniais; especialista da Loja Elétrica explica como a engenharia de painéis atua na prevenção.
Enquanto o Brasil acelera na digitalização e na eletrificação do consumo, o quadro de distribuição — componente vital da segurança doméstica e comercial das instalações elétricas — permanece estagnado.
O impacto desse descaso já é mensurável. Segundo o mais recente Anuário Estatístico de Acidentes de Origem Elétrica da Abracopel, houve um salto de até 23% nos incêndios por sobrecarga em recortes regionais no último ano, evidenciando que as instalações elétricas brasileiras não acompanham a nova carga de equipamentos conectados.
A inclusão de equipamentos de elevada potência sem a devida adequação do sistema de proteção é apontada como o ponto central do aumento das estatísticas de incêndio. Para Analeia Gomes, Coordenadora de Montagem de Painéis da Loja Elétrica, a recorrência desse problema e de seus efeitos é motivo de preocupação:
“A negligência técnica e o desconhecimento dos efeitos de ampliação de carga sem o devido redimensionamento são as principais causas de incêndios por sobrecarga. A inclusão de cargas de elevada potência, não previstas no quadro de proteção de energia, submete todo o sistema à condição de risco”.
Os sinais silenciosos e o risco da “perda de isolação”
Diferente de vazamentos hidráulicos, o colapso elétrico é precedido por sinais físicos que são muitas vezes ignorados por não serem óbvios. Ainda segundo a especialista, o monitoramento térmico e a estabilidade da tensão são os principais termômetros para evitar que o aquecimento silencioso dos condutores culmine em curto-circuito.
“O aumento da temperatura interna de um quadro de distribuição e as quedas de tensão nos pontos de conexão são indícios de uma instalação sobrecarregada. Quando uma fiação perde a sua isolação, a parte condutiva fica exposta e, com isso, submete a instalação ao risco de curto-circuito“, aponta Analeia.
Proteção contra surtos e fugas se torna item de sobrevivência patrimonial
A modernização dos quadros de luz, regida pela norma NBR 5410, introduz componentes de segurança que eram raros em instalações mais antigas e seus quadros elétricos, mas que hoje são barreiras indispensáveis contra falhas e descargas atmosféricas. Entre eles, o Interruptor Diferencial Residual (DR) e o Dispositivo de Proteção contra Surto (DPS) formam a linha de frente da proteção.
Analeia detalha que o DR atua no monitoramento de fugas, realizando uma comparação da corrente entre fases e neutro. “É crucial para a proteção de pessoas, pois interrompe o fornecimento de energia quando correntes na faixa de miliamperes apresentam variação indicando fugas que podem ser causas de choques elétricos”.
Já o DPS (dispositivo de proteção de surto) protege contra sobretensões de fontes externas, com o mecanismo atuando na interrupção de sobretensão oriundas de fontes externas, como descargas atmosféricas. Dentre alguns efeitos da elevação de tensão está a queima de equipamentos elétricos e a perda de isolação dos componentes e condutores.
Eletromobilidade impõe novos desafios ao quadro de distribuição
A crescente demanda por carregadores de veículos elétricos em garagens de condomínios e residências promoveu, em muitos casos, a ampliação de potência sem análise prévia de capacidade, o que gera um efeito cascata de sobreaquecimento.
“A ampliação de potência em um quadro de distribuição sem análise prévia de capacidade de alimentação compromete a instalação do cliente e o fornecimento de energia”, adverte a especialista. Ela explica que, para compensar a queda de energia e manter a potência requerida pelo carregador veicular, “a corrente sofre uma elevação, levando o sistema à condição de sobrecarga. Isso gera aquecimento que compromete a isolação dos componentes e fiação e coloca a instalação em risco de curto-circuito”.
O impacto financeiro do calor excessivo na conta de luz
Para além da segurança, a modernização dos sistemas elétricos (retrofit) apresenta um impacto econômico direto na eficiência energética das empresas e residências. Isso ocorre porque pontos de conexão que geram calor excessivo representam, na prática, energia consumida debitada na fatura sem se converter em uso útil.
A coordenadora da Loja Elétrica é enfática sobre esse desperdício: “Todo calor oriundo de pontos de conexão ou de equipamentos que não se destinam a este fim, é perda. Para que esta potência térmica seja gerada a energia elétrica foi consumida e será debitada na fatura de energia”.
A atualização do sistema permite configurações que facilitam a troca de calor e a inclusão de anteparos mecânicos que evitem toques acidentais e riscos de choques elétricos, garantindo uma operação mais segura e financeiramente eficiente.


