Saúde

Corrida contra o tempo em transplantes reforça a importância da segurança no transporte de órgãos

Operações que cruzaram estados brasileiros nos últimos dias evidenciam como cada minuto e controle térmico são decisivos para o sucesso das cirurgias

Quando um coração é captado para transplante, o relógio passa a ditar cada movimento da equipe médica. Avião acionado, ambulância mobilizada, centro cirúrgico preparado e a prioridade de fazer com que o órgão chegue em condições ideais ao receptor. Nas últimas semanas, dois transplantes pediátricos mobilizaram diferentes estados brasileiros em operações que foram verdadeiras corridas contra o tempo.

No início de fevereiro, o coração de um bebê de três meses, do interior de São Paulo, foi doado para uma criança de um ano que aguardava na fila. O procedimento foi realizado no InCor, um dos principais centros cardiológicos do país. Já no último domingo, 1º de março, uma criança de quatro anos que esperava há mais de um ano por um novo coração recebeu o órgão doado por uma menina de nove anos, vindo de Goiás. A cirurgia foi realizada no Hospital do Coração, em São Paulo. 

Mais uma vez, a distância entre doador e receptor exigiu uma operação logística precisa, envolvendo transporte aéreo e equipes médicas em dois estados. Embora a cirurgia seja o momento mais visível do transplante, especialistas reforçam que o sucesso do procedimento depende de uma cadeia integrada que começa na decisão familiar e passa, necessariamente, pela preservação adequada do órgão durante o deslocamento.

Tradicionalmente, o transporte de órgãos é feito com o uso de gelo, método que pode gerar oscilações de temperatura e limitar a previsibilidade do processo. Nos dois procedimentos recentes, quem entrou em ação foi o Taura, equipamento 100% brasileiro, desenvolvido pela empresa Biotecno, para transporte de órgãos sólidos como coração, fígado e rins.

“O sistema mantém o órgão em temperatura controlada de 6 °C por até dez horas, sem uso de gelo, com calibração térmica obrigatória e baterias homologadas para aviação comercial. A proposta é reduzir variações térmicas e ampliar a estabilidade durante trajetos que, muitas vezes, cruzam estados em poucas horas”, explica a CEO da Biotecno, Lídia Linck.

Ela reforça a emoção de saber que o Taura foi fundamental para auxiliar os dois casos. “Quando soubemos que o Taura estava transportando um coração tão pequeno, com 28g, meu primeiro pensamento foi de que a tecnologia realmente funcionasse como trabalhamos, porque no gelo, as chances desse coração seriam menores. O Taura trabalhou para resfriar de maneira menos abrasiva esse órgão tão sensível”, conta. 

O Brasil é referência mundial em volume de transplantes. Segundo dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, o país realiza cerca de 8 mil transplantes por ano. Com base em dados parciais divulgados em setembro de 2025, o Brasil realizou 7.098 transplantes de órgãos, além de 12.746 transplantes de córnea, totalizando quase 20 mil procedimentos. No entanto, a fila de espera ainda é um grande desafio.

Especialistas destacam que a eficiência dessa engrenagem depende de protocolos rigorosos em todas as etapas. Para o cardiologista Juglans Souto Alvarez, que atua há mais de duas décadas com transplantes e insuficiência cardíaca, o controle térmico é um dos pontos mais sensíveis do processo. “O órgão transplantado é extremamente vulnerável ao tempo e às variações de temperatura. Pequenas oscilações podem comprometer sua performance após o implante. Quando conseguimos manter estabilidade térmica previsível e documentável durante todo o transporte, reduzimos um risco que muitas vezes é invisível para quem acompanha apenas a cirurgia na fase final”, explica.

Segundo ele, a qualidade da preservação pode impactar diretamente o pós-operatório imediato e o tempo de recuperação. “Não existe margem para improviso. Cada etapa precisa funcionar de forma integrada. A tecnologia não substitui as equipes médicas, mas oferece uma camada adicional de segurança em um processo em que cada minuto faz diferença”, afirma o médico.

Lídia Linck, reforça que o transporte é parte essencial da jornada do transplante. “A decisão da família doadora é um gesto de generosidade imenso. Nossa responsabilidade é garantir que esse órgão percorra todo o caminho nas melhores condições possíveis. Segurança térmica não é um detalhe operacional, é parte fundamental da chance de sobrevivência do paciente”, conclui

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Lidia Linck, CEO da Biotecno
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O Taura promete revolucionar o transporte de órgãos no mundo
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