Médicos Sem Fronteiras: civis são alvos de ataques com drones na fronteira entre Chade e Sudão
Desde fevereiro, 457 pessoas foram atendidas pela organização na região, onde a insegurança e o surto de sarampo aumentam a vulnerabilidade das famílias deslocadas.
Tine, Chade, 2 de abril de 2026 – Ataques com drones realizados pelas Forças Armadas Sudanesas (SAF – sigla em inglês), pelas Forças de Apoio Rápido (RSF – sigla em inglês) e por grupos aliados continuam a atingir áreas civis ao longo da fronteira do Sudão com o Chade. Desde o início de fevereiro de 2026, 457 pessoas feridas em ataques foram atendidas por Médicos Sem Fronteiras (MSF), em colaboração com a equipe do Ministério da Saúde do Chade, na cidade fronteiriça de Tine. Em meio à insegurança e à falta de recursos suficientes para fornecer assistência médica, MSF alerta para o impacto devastador sobre as pessoas que estão no fogo cruzado.
No final de fevereiro, as RSF reivindicaram a captura da cidade sudanesa de Tina, no estado de Darfur do Norte, bem próxima a Tine, no leste do Chade. Os intensos ataques, que continuam até hoje, resultaram em consequências significativas para a população civil, agravando uma crise humanitária já severa. Civis da região de Darfur têm enfrentado níveis extremos de violência, incluindo ataques étnicos contra comunidades não árabes, bombardeios e execuções em massa. Em Tine, MSF presta apoio médico e humanitário a pessoas que fogem da violência.
“Temos trabalhado ininterruptamente. Nossa equipe apoiou as autoridades de saúde do Chade no tratamento de 457 pessoas em dois meses. Os civis não foram poupados da violência, com seis crianças entre os feridos”, explica Rita Magano, coordenadora médica de MSF em Tine. Magano fez parte da equipe que respondeu a 13 incidentes com múltiplas vítimas. “Cerca de 50% dos ferimentos foram nos membros superiores e inferiores, com uma proporção significativa de fraturas expostas. Não esperávamos um fluxo tão grande de pacientes gravemente feridos. Fizemos o possível para estabilizá-los, tratá-los e realizar cirurgias que salvassem suas vidas.” No total, 38 pessoas morreram no hospital — 19 delas em um único dia, em 16 de março, após ataques na fronteira.
As equipes de MSF estavam, inicialmente, apoiando o hospital de Mabrouka, em Tine, localizado a algumas centenas de metros da fronteira. “Em 21 de fevereiro, fechamos o hospital e transferimos pacientes e equipamentos para a nova unidade de saúde em poucas horas, porque havia tiros e bombardeios nas proximidades, e não podíamos garantir a segurança”, diz Jean Hippolyte, gerente de logística de MSF.
Hippolyte é um dos 11 funcionários da organização que apoiam o hospital recém-construído em Tine. “Em um dia, recebemos 123 pacientes simultaneamente e estávamos ficando sem medicamentos essenciais para as cirurgias. O acesso à água e à eletricidade também foi interrompido no novo hospital, o que tornou a resposta à emergência muito difícil.”
Em 18 de março, um ataque com drone matou 17 pessoas que participavam de um funeral em Tine, segundo as autoridades do Chade. As equipes de MSF prestaram atendimento a 24 pessoas, muitas em estado crítico. Os ataques no Chade colocam em risco tanto os trabalhadores humanitários quanto os civis, incluindo refugiados que fugiram da guerra no Sudão.
“Continuamos adaptando e realocando nossas atividades. Nossa equipe precisou suspender temporariamente o trabalho em algumas ocasiões por motivos de segurança. A atual insegurança torna insustentável para MSF fornecer sequer o mínimo de apoio médico às pessoas que buscam proteção no Chade.”
MSF também atua em um acampamento temporário em Tine para apoiar refugiados que fugiram da guerra no Sudão. Apesar dos desafios de segurança, a equipe continua oferecendo consultas ambulatoriais, triagem nutricional, vacinação, apoio a sobreviventes de violência sexual e atendimento em clínicas médicas móveis.
MSF é a única organização que fornece água, depois que outras se retiraram por falta de recursos. Para piorar a situação, Tine registra um surto de sarampo – assim como outros distritos no Chade, o que levou MSF a vacinar 710 crianças nos dias 25 e 26 de março.
Os civis na fronteira entre Chade e Sudão precisam de proteção imediata. Diante da contínua deterioração da situação no norte de Darfur, dos cortes no financiamento humanitário global, dos níveis extremos de violência e das privações enfrentadas pelas famílias deslocadas, as necessidades humanitárias dessas pessoas são enormes e exigem apoio urgente.

