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Por que 2026 será o ano da automação médica no Brasil?

Por Dr. João Ladeia

A medicina brasileira vive um paradoxo. Nunca tivemos tanta tecnologia disponível e, ao mesmo tempo, nunca os médicos estiveram tão sobrecarregados por tarefas que pouco têm a ver com o ato de cuidar. Entre prontuários, prescrições, sistemas fragmentados e obrigações administrativas, boa parte da jornada de trabalho é consumida longe do paciente.

Estudos internacionais ajudam a dimensionar esse problema. Uma pesquisa publicada pela Annals of Internal Medicine aponta que médicos chegam a gastar quase o dobro do tempo com atividades administrativas em comparação ao tempo dedicado ao atendimento direto. Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o burnout como um fenômeno ocupacional, com impacto crescente entre profissionais da saúde em todo o mundo.

No Brasil, esse cenário se soma a um sistema de saúde cada vez mais pressionado por volume, escassez de profissionais em algumas regiões e aumento da complexidade dos atendimentos. O resultado é um ambiente propício para uma transformação estrutural, e é por isso que 2026 tende a marcar um ponto de virada: a automação deixará de ser inovação para se tornar necessidade.

A inteligência artificial e as tecnologias de automação já demonstram capacidade de reduzir drasticamente o tempo gasto em tarefas repetitivas. Segundo a consultoria McKinsey & Company, até 30% das atividades administrativas na área da saúde podem ser automatizadas com as tecnologias atualmente disponíveis. Isso inclui organização de dados clínicos, geração de documentos, triagem de informações e processos operacionais.

O impacto dessa mudança vai além da produtividade. Ele atinge diretamente a qualidade do cuidado. Quando o médico deixa de dividir sua atenção entre o paciente e a tela do computador, a consulta se torna mais humana, mais atenta e mais segura. Automação, nesse sentido, não é substituição do profissional, mas ampliação de sua capacidade de escuta e decisão.

Outro fator que impulsiona essa transformação é a digitalização acelerada dos dados médicos. Relatório da Gartner indica que a maioria das organizações de saúde no mundo já utiliza algum tipo de inteligência artificial em processos administrativos ou clínicos, e a tendência é de crescimento contínuo nos próximos anos. No Brasil, a expansão do prontuário eletrônico, da telemedicina e das prescrições digitais cria a base necessária para que a automação ganhe escala.

No entanto, o avanço tecnológico precisa ser acompanhado de responsabilidade. Dados de saúde são considerados sensíveis pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e exigem padrões elevados de segurança e governança. O relatório Cost of a Data Breach 2024, da IBM Security, aponta que o setor de saúde é o que apresenta o maior custo médio por vazamento de dados no mundo. Isso reforça que automação não pode significar improviso: é preciso investir em soluções desenhadas especificamente para o contexto médico.

Há também uma mudança cultural em curso. As novas gerações de médicos entram no mercado já familiarizadas com tecnologia, enquanto profissionais mais experientes começam a perceber que digitalizar processos não é abrir mão da autonomia clínica, mas ganhar tempo e precisão. O centro da decisão continua sendo humano. A tecnologia organiza, registra e sistematiza aquilo que o médico define.

Quando falamos em 2026 como o ano da automação médica, falamos de um movimento semelhante ao que ocorreu em outros setores, como bancos e aviação, onde tarefas operacionais passaram a ser automatizadas para reduzir erros e aumentar eficiência. Na saúde, isso se traduz em mais tempo para o raciocínio clínico, menos retrabalho e maior segurança da informação.

O futuro da medicina brasileira não será apenas digital — será automatizado de forma inteligente. A questão não é se a automação vai acontecer, mas como ela será implementada: com foco no paciente, respeito à legislação e valorização do profissional de saúde.

Se quisermos enfrentar o burnout, melhorar a qualidade do atendimento e tornar o sistema mais sustentável, precisaremos aceitar que a tecnologia não é mais um acessório da prática médica. Em 2026, ela será parte estrutural dela.

Dr. João Ladeia é médico e especialista em inovação aplicada à saúde, fundador da Mediccos, plataforma de inteligência artificial voltada exclusivamente para a documentação médica.

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