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Consumo excessivo de água em datacenters de IA preocupa sustentabilidade hídrica do Brasil

Falta de água

Pesquisador da UMC alerta para estresse hídrico caso expansão provocada por salto de escala da IA aconteça sem regulação que combine incentivos condicionados a critérios ambientais rigorosos, transparência de dados e planejamento territorial baseado em bacias hidrográficas

Em meio à expansão digital e à evolução acelerada da Inteligência Artificial (IA), o Brasil tem se destacado como destino atrativo para grandes datacenters – instalações físicas que concentram sistemas de computação e equipamentos, incluindo telecomunicações e armazenamento de dados digitais. A rara combinação de matriz energética limpa e abundante, custos competitivos de energia e localização geográfica estratégica com ampla conexão de cabos submarinos que conectam a América do Sul à Europa, África e Estados Unidos faz com que o país concentre metade dos grandes centros do continente, servindo como hub regional para big techs e provedores de nuvem. Tamanha atração, contudo, tem feito o consumo de água elevar e pode impactar a sustentabilidade hídrica caso o crescimento siga desenfreado. O alerta é de Fabiano Bezerra Menegidio, professor, docente e coordenador do Núcleo de Pesquisas Tecnológicas (NPT) da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC).

“O mix de atrações do Brasil tem levado a projeções de investimentos anuais de cerca de US$ 6,5 bilhões em novos datacenters até 2030 no país. Esse volume nos traz desafios: o clima tropical exige mais energia para refrigeração dos equipamentos e há pressões sobre água e rede elétrica em algumas regiões”, destaca Menegidio, que também é coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Biomédica e pesquisador na área de Bioinformática na UMC.

A preocupação é real. A Agência Internacional de Energia (AIE) estima que o consumo global de água por datacenters, hoje em torno de 560 bilhões de litros/ano, deve saltar para cerca de 1,2 trilhão de litros até 2030, impulsionado pela demanda por computação intensiva.

Outra questão que preocupa é a concentração de datacenters no eixo São Paulo – Campinas. “Mais de 80 dos cerca de 200 em funcionamento no país estão inseridos em bacias já muito pressionadas, como a do Alto Tietê e a dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), que estão entre as mais populosas e com maior estresse hídrico do Brasil”, afirma Menegidio.

Diante do contexto, o docente da UMC destaca que as políticas governamentais devam adotar um desenho regulatório “que combine incentivos condicionados a critérios ambientais rigorosos, transparência de dados e planejamento territorial baseado em bacias hidrográficas, com estudos de impacto ambiental que considerem efeitos cumulativos de recursos desses grandes centros, além do direito humano à água como critério orientador, especialmente em um cenário de mudanças climáticas”.

A engenharia pode dar importante contribuição com suas inovações, como a troca de torres evaporativas por sistemas de resfriamento em circuito fechado e refrigeração líquida direta nos chips.

“A água é inserida uma única vez na construção e depois recircula sem evaporar, o que reduz seu consumo anual em mais de 125 milhões de litros por instalação, além de melhorar a eficiência energética. A contenção de corredores quentes/frios, combinados com controle por IA que monitora perfis térmicos em tempo real e direciona o resfriamento exatamente onde é necessário, é outro exemplo eficaz que, combinada a política pública que se atente ao cenário futuro, pode garantir uma operação segura e sustentável”, explica Menegidio.