5.000 anos de história e a urgência de crescer: impressões de quem voltou à China um ano depois

Por Rodrigo Murta, CEO do Looqbox
Durante uma visita à sede do Alibaba, assisti a um vídeo que, para mim, explicou mais sobre a China do que qualquer relatório ou indicador econômico. A gravação mostrava trechos da tradicional gala do Ano Novo Chinês, transmitida para centenas de milhões de pessoas. Em 2025, robôs humanoides apareciam no palco executando movimentos simples e cuidadosamente coreografados, como em uma demonstração tecnológica. Um ano depois, na edição de 2026, aqueles mesmos robôs estavam interagindo com crianças em apresentações de kung fu ao vivo.
A mudança em apenas doze meses impressiona porque revela algo que fica evidente para quem acompanha o país de perto, a velocidade de evolução tecnológica na China é difícil de comparar com qualquer outro lugar do mundo.
Os números ajudam a entender essa dimensão. Em 2025, o país produziu mais de 773 mil robôs industriais e respondeu por mais da metade das instalações globais. Também fabricou quase 13 mil robôs humanoides, concentrando a maior parte das implementações deste tipo de tecnologia no mundo.
Ainda assim, nada traduz melhor essa transformação do que o que encontrei em um shopping center. Entre lojas de roupas, eletrônicos e artigos de consumo, havia uma unidade da Unitree comercializando robôs humanoides e quadrúpedes para clientes comuns. Comprar um robô já faz parte da experiência de consumo de parte da população chinesa. Embora muitos desses equipamentos ainda tenham um uso mais voltado ao entretenimento, a sensação é de que aplicações domésticas mais amplas estão cada vez mais próximas. A Galbot, por exemplo, já opera uma loja de varejo conduzida integralmente por um robô humanoide.
Outra mudança perceptível desde minha última visita foi a forma como as pessoas compram online. Em 2025, a inteligência artificial generativa já estava presente no varejo, mas ainda funcionava como apoio à jornada do consumidor. Agora ela ocupa uma posição central.
O Alibaba oferece um bom exemplo desse movimento com o Qwen, o modelo aberto de linguagem mais utilizado no mundo atualmente. No Taobao, a experiência de compra passou a acontecer por meio de conversas. Em vez de navegar por menus, categorias e filtros, o consumidor descreve o que procura, recebe sugestões, ajusta preferências e conclui a compra diretamente no diálogo com a IA. Durante a viagem, pedi comida, reservei hotel e até comprei peixe fresco dessa forma, e todo o processo aconteceu em uma única conversa.
Não surpreende, portanto, que a adoção dessas ferramentas tenha avançado tão rapidamente. Hoje, boa parte dos consumidores chineses já utiliza IA para comprar, enquanto o live commerce continua ampliando sua participação no comércio eletrônico do país.
Esse avanço tecnológico também tem raízes estruturais. A China forma cerca de 3,6 milhões de graduados nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática todos os anos. São aproximadamente 1,3 milhão de novos engenheiros por ano. Para efeito de comparação, os Estados Unidos formam cerca de 130 mil engenheiros anualmente, enquanto o Brasil registra algo próximo de 40 mil.
A produção de propriedade intelectual acompanha essa capacidade de formação. O país lidera os registros globais de patentes relacionadas à inteligência artificial e mantém um ritmo de crescimento que reforça sua posição como um dos principais polos mundiais de inovação.
Apesar disso, o aspecto que mais me chamou atenção não aparece em planilhas. O que salta aos olhos é a relação das pessoas com a tecnologia. Existe um sentimento genuíno de entusiasmo em torno da inteligência artificial. Crianças têm contato com o tema ainda na escola, drones realizam entregas em áreas públicas e robôs circulam por lojas e centros comerciais sem despertar curiosidade excessiva. Tudo parece integrado ao cotidiano.
A mesma dinâmica aparece no setor automotivo. A China responde pela maior parte da produção mundial de veículos elétricos e concentra mais da metade das vendas globais. Em algumas cidades, os carros eletrificados já deixaram de ser novidade há bastante tempo. Eles simplesmente fazem parte da paisagem urbana.
Desde que voltei, uma pergunta tem se repetido: vale a pena retornar à China em um intervalo tão curto? Minha resposta é sempre a mesma. Sim, justamente porque as mudanças acontecem muito rápido. Quem visita o país pela primeira vez costuma sair impressionado. Quem retorna um ano depois percebe que aquilo que parecia avançado já foi substituído por uma nova referência.
Ao desembarcar em São Paulo, fiquei alguns dias tentando definir a sensação que trouxe da viagem. Não era cansaço nem diferença de fuso horário. A impressão era de ter visitado um lugar onde muitas das discussões que ainda estamos começando a ter já se transformaram em realidade cotidiana para mais de um bilhão de pessoas.
Rodrigo Murta é fundador e CEO do Looqbox, empresa especializada em democratização de dados e inteligência artificial para negócios.


