ACNUR apoia a recepção e integração local de refugiados haitianos que chegam ao Brasil

Em parceria com organizações da sociedade civil e organizações lideradas por pessoas refugiadas, ACNUR tem apoiado desde a recepção de voos até ações de inclusão socioeconômica nas comunidades de acolhida

A haitiana Jeanne-Marie Hippolite chegou nesta quarta, 15, a Guarulhos (SP) e recebeu apoio do ACNUR para reencontrar a família no Paraná ©ACNUR/Paola Bello
Com a retomada das emissões de vistos de reunião familiar, o Brasil voltou a receber grupos que chegam do Haiti em busca de proteção. Em 2026, com o apoio de organizações lideradas por pessoas refugiadas, famílias têm fretado voos que chegam diretamente a diferentes cidades brasileiras. Apenas nesta semana, dois voos fretados aterrissaram. O primeiro chegou em Campinas (SP), na terça-feira (14), e segundo, nesta quarta (15) em Guarulhos (SP), com escala em Manaus (AM). Cerca de 180 pessoas haitianas chegaram em cada voo.
Em parceria com a Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) viabilizou a presença de um mediador intercultural na recepção dos grupos nos aeroportos, com o objetivo de tornar mais compreensíveis e acessíveis as informações repassadas no momento da chegada. Além disso, o ACNUR aplicou questionário para identificar as principais demandas e apoiou a recepção e transporte das pessoas que chegaram em Manaus e Guarulhos e seguiram para outras cidades. Este último trabalho foi feito em parceria com organizações lideradas por pessoas refugiadas – a Associação dos Trabalhadores Haitianos no Amazonas (ATHAM) e a Associação dos Haitianos no Brasil (AHB).
“Como associação, nosso papel é garantir que as pessoas cheguem bem ao destino. Compramos as passagens de ônibus para as outras cidades, damos um prato de comida de boas-vindas, ajudamos a fazer cambio de dinheiro e compras também. Quem vai para Porto Alegre, nós acompanhamos até a rodoviária ou até a chegada do familiar no aeroporto”, explica Anne Milceus, liderança à frente da Associação dos Haitianos no Brasil (AHB). A associação está localizada em Porto Alegre (RS) e, nesta quarta (15), esteve na recepção das cerca de 170 pessoas que chegaram em Guarulhos (SP).
Jeanne-Marie Hippolite estava entre as pessoas apoiadas em Guarulhos. Ela conta que veio para o Brasil para encontrar com a família, que há três anos vive no Paraná. “Vim para o Brasil porque aqui é mais seguro. Estou feliz porque vou reencontrar minha família depois de tantos anos. Ainda não falo português, então para mim foi muito importante contar com esse apoio na chegada, com pessoas que falam meu idioma, me deram atenção e me passaram informações. Também agradeço o apoio que recebi com o transporte. Acabei de chegar e já me sinto em casa”, afirma.
Ao longo do ano, equipes do ACNUR apoiaram e acompanharam voos que chegaram em Porto Alegre (RS), Florianópolis (SC), Foz do Iguaçu (PR), Curitiba (PR), Campinas (SP), Guarulhos (SP), Manaus (AM) e Belém (PA). Além do apoio com transporte e recepção, o foco da atuação das equipes tem sido dar suporte aos casos de proteção às crianças e adolescentes desacompanhados ou separados, assim como o referenciamento aos serviços públicos às pessoas em situação de maior vulnerabilidade social.
“Junto à Polícia Federal e à Defensoria Pública, fazemos a identificação de casos de crianças ou adolescentes haitianos desacompanhados ou separados que precisam de procedimentos especializados de regularização documental e de guarda. Esse é um passo importante, logo na chegada ao Brasil, para garantir a proteção à criança de forma alinhada às diretrizes do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente e ao Guia desenvolvido pelo Conanda com o ACNUR, Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania e Unicef”, explica a oficial de proteção do ACNUR, Silvia Sander.
A acolhida na língua materna
Dentre os desafios enfrentados por esta população, a comunicação é uma barreira que surge logo na chegada ao país de acolhida. Haitianos têm como idiomas oficiais o crioulo e o francês. Para apoiar a compreensão de tantas informações que são passadas na chegada dos voos, existem profissionais de mediação intercultural que atuam como ponte e ajudam a facilitar a comunicação, o entendimento e a convivência.
Com apoio do ACNUR, pessoas haitianas têm sido treinadas e contratadas como mediadoras interculturais na recepção dos voos. No Rio Grande do Sul, por exemplo, essa ação tem sido feita em parceria com o Serviço Jesuítas para Migrantes e Refugiados (SJMR), enquanto em São Paulo, a contratação de mediação é feita por meio da Cáritas Arquidiocesana.
Há 13 anos no Brasil, Jude Sam Mondesir lembra das próprias experiências quando realiza as mediações. “A língua portuguesa é uma das maiores barreiras para quem chega pela primeira vez ao Brasil. Quando a pessoa encontra alguém que fala o seu idioma, ela se sente mais tranquila, compreendida. Além disso, quem já passou por esse processo entende quais são os medos e as dúvidas que surgem nesse momento. Eu passei bastante dificuldade quando cheguei e hoje consigo superar esses desafios. É importante ter um mediador para ajudar as pessoas a superarem também”, explica.
Para facilitar o processo de chegada e inclusão, o ACNUR também oferece a página Help em crioulo e materiais informativos no idioma voltados às comunidades haitianas.
Emergência reconhecida
O Haiti enfrenta uma crise humanitária cada vez mais grave. Estima-se que 6,4 milhões de pessoas necessitem de assistência humanitária, enquanto quase 6 milhões estão à beira da fome. A escalada da violência deslocou internamente quase 1,5 milhão de pessoas, sendo que metade desse total foi deslocada entre agosto de 2024 e março de 2026.
O ACNUR acompanha com profunda preocupação o agravamento da situação de segurança, direitos humanos e condições humanitárias no Haiti. Diante desta rápida deterioração, o ACNUR emitiu orientações legais para garantir que a proteção internacional a refugiados seja garantida às pessoas haitianas.
Pessoas haitianas podem ser refugiadas?
De acordo com a Convenção relativa ao Estatuto dos Refugiados de 1951, haitianos elegíveis à proteção internacional como refugiados podem incluir ativistas políticos, jornalistas, juízes, advogados e outras pessoas que atuam no combate à corrupção e ao crime, entre outros perfis em situação de risco.
Haitianos também podem ser elegíveis para proteção como refugiados sob a definição regional da Declaração de Cartagena de 1984. De acordo com esta definição aplicada por muitos países, a proteção como refugiado deve ser estendida a indivíduos afetados por circunstâncias que perturbem seriamente a ordem pública no país e pela violência generalizada em áreas impactadas por atividades de gangues.
Haitianos são bem-vindos no Brasil
Até o final de 2025, mais de 105 mil pessoas haitianas buscavam proteção internacional no Brasil, dado que coloca o país em segundo lugar, com maior número de pessoas haitianas em necessidade de proteção internacional fora do Haiti. Até abril de 2026, a população haitiana se destacava como terceira com o maior número de solicitações de refúgio no Brasil.
Em diferentes localidades do Brasil, o ACNUR apoia estas pessoas com o acesso ao sistema de asilo, à documentação, à informação confiável sobre direitos, serviços e oportunidades, oferta de formações profissionais, meios para o acesso ao trabalho digno, aulas de português e encaminhamentos para serviços básicos. Dá suporte também às iniciativas de base comunitária, contribuindo para a atuação de organizações e negócios liderados por pessoas haitianas.
O trabalho desenvolvido está alinhado ao Plano de Ação para o Fortalecimento da Proteção e Integração Local da População Haitiana no Brasil, parte do Programa de Aceleração de Políticas de Refúgio para Pessoas Afrodescendentes do governo federal.



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