
Artesanato em cerâmica do Vale do Jequitinhonha desembarca em Paris
Esculturas feitas de barro estarão presentes em duas exposições na capital francesa no mês de setembro. Iniciativa marca um novo capítulo na internacionalização do artesanato de Minas Gerais
Durante décadas, as mãos dos artesãos do Vale do Jequitinhonha moldaram o barro para preservar tradições, contar histórias e gerar renda para as famílias da região. Em setembro deste ano, esse patrimônio cultural vai ultrapassar fronteiras e ocupar a Paris Design Week, período em que a cidade francesa concentra exposições, lançamentos, eventos culturais e encontros entre profissionais do setor.
O artesanato em cerâmica da região será apresentado na Maison & Objet Paris 2026, entre os dias 10 e 14 de setembro. A iniciativa, considerada a principal feira internacional de decoração, design, arte, lifestyle e negócios. Cerca de 150 esculturas, produzidas por artesãos de quatro comunidades do Vale do Jequitinhonha, serão expostas para um público de compradores, galeristas, arquitetos, designers, curadores e formadores de opinião de diversos países.
A participação no evento representa um dos movimentos mais relevantes já realizados para a internacionalização do artesanato mineiro e visa posicionar a produção do Vale do Jequitinhonha como referência internacional em autenticidade, qualidade e valor cultural.
O curador da exposição na Maison & Object, Marco Aurélio Pulchério, destaca que o artesanato da região é único e carrega uma força expressiva, e a expectativa em torno dele é muito positiva. “A curadoria das esculturas foi um processo desafiador e, ao mesmo tempo, extremamente gratificante. Ainda que o trabalho do Vale do Jequitinhonha já fosse conhecido de longa data, vivenciar de perto toda essa produção foi uma experiência marcante. Realizar essa seleção foi uma experiência muito especial, e a expectativa para quando essa jornada chegar à Paris é de grande sucesso”, destaca.
Uma das esculturas que será exposta na Maison & Objet
Além da Maison & Objet, as esculturas também estarão expostas na Ricardo Fernandes Gallery, na exclusiva exposição “A Terra Modelada pela Arte – Vale do Jequitinhonha”, entre os dias 8 e 18 de setembro, ampliando a visibilidade da produção mineira durante a Paris Design Week.
A mostra, com curadoria do renomado galerista Ricardo Fernandes, será realizada no bairro Marais – uma região reconhecida pela intensa vida cultural e artística, aproximando o artesanato do Vale do Jequitinhonha de galeristas, curadores e instituições que valorizam a relação entre arte, patrimônio, criação e inovação.
Bonecas estarão presentes na exposição “A Terra Modelada pela Arte”, realizada na Ricardo Fernandes Gallery
“Além de ser um espaço de valorização do artesanato do Vale do Jequitinhonha, a galeria é uma porta aberta às reflexões humanas. A força da obra das artesãs e o legado de Dona Izabel transformaram um coletivo de artistas de toda a região. Nossa expectativa é que a galeria sirva como ferramenta de expansão desse conhecimento e, com o tempo, consolide o legado de Dona Izabel como um marco histórico-cultural para o mundo”, frisa Fernandes.
A iniciativa é uma parceria entre o Sebrae Minas e o Governo de Minas Gerais, por meio da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sede), e consolida uma estratégia para ampliar o potencial do artesanato como vetor de desenvolvimento econômico, geração de renda e valorização da identidade cultural mineira.
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“O mercado internacional procura autenticidade, origem e produção autoral, e o Vale do Jequitinhonha reúne todos esses atributos. Estar presente em ações durante a Paris Design Week significa consolidar o artesanato mineiro em um circuito altamente qualificado, no qual as características da produção artesanal são muito valorizadas. Essa internacionalização coroa a nossa atuação e é resultado de um trabalho contínuo de qualificação, acesso a mercados e valorização dos saberes tradicionais”, explica o presidente do Conselho Deliberativo do Sebrae Minas, Marcelo de Souza e Silva.
Principal vitrine do design mundial
A Maison & Objet é considerada uma referência global para os mercados de design, decoração, arquitetura e lifestyle. Realizada duas vezes por ano na capital francesa, a feira funciona como um observatório das tendências internacionais de consumo, comportamento, inovação e design. O evento reúne milhares de expositores e visitantes de dezenas de países, funcionando como um espaço de lançamentos, geração de negócios e conexão entre criadores e compradores internacionais.
Na edição de 2026, o Sebrae Minas terá um estande concebido para apresentar ao mercado internacional a riqueza e a diversidade da cerâmica artesanal do Vale do Jequitinhonha. O espaço reunirá, exclusivamente, esculturas produzidas por artesãs e artesãos de quatro importantes comunidades ceramistas do território: Campo Alegre, Coqueiro Campo, Santana do Araçuaí e Cachoeira do Fanado.
Nascida em Santana do Araçuaí, Andréia Andrade cresceu em um verdadeiro “berço de barro”. Ela é neta de Dona Izabel, premiada ceramista mineira, conhecida como a Dama do Barro do Jequitinhonha e criadora das famosas bonecas-moringa. A artesã apresentará suas tradicionais noivas inspiradas nas obras da avó e uma escultura em homenagem à mestra, retratando a matriarca modelando uma cabeça de noiva, eternizando em barro a mulher que foi sua maior referência artística.
“Participar dessa exposição representa a realização de um sonho. Em cada obra, estão presentes as histórias, as memórias e o legado de uma família que transformou a arte em patrimônio cultural e que agora segue conquistando novos espaços no mundo”, comemora.
Andréia Andrade é neta de Dona Izabel, criadora das famosas bonecas-moringa
Augusto Ribeiro também mora em Santana do Araçuaí e é um seguidor de Dona Izabel. Ele trocou os brinquedos pelo barro ainda menino e, sem perceber, começou a escrever a própria trajetória dentro de uma tradição que atravessa gerações de mulheres artesãs da região. Para a participação em Paris, Augusto selecionou esculturas que traduzem diferentes camadas de sua produção e da identidade do Vale do Jequitinhonha.
“Estamos mostrando o Vale do Jequitinhonha como um território de criação, de sensibilidade, de memória e de potência artística. Quando uma boneca minha é reconhecida, sinto que a minha história, a história da minha família, o trabalho das mulheres que vieram antes de mim e a cultura do Vale do Jequitinhonha também estão sendo vistos. Minha expectativa é que essa experiência abra novos caminhos para a arte do Vale”, projeta.
Augusto Ribeiro levará a ‘Noiva’, imagem emblemática criada originalmente por Dona Izabel
A seleção de esculturas para as exposições durante a Paris Design Week traduz a identidade da região por meio de formas, texturas, cores e narrativas inspiradas no cotidiano, na ancestralidade e na relação das comunidades com o território, bem como fortalece o Vale do Jequitinhonha como um território produtor de um artesanato único, contemporâneo e competitivo em um mercado que valoriza, cada vez mais, a autenticidade como o verdadeiro diferencial do luxo.
A exposição exclusiva e a participação na Maison & Objet abrem oportunidades para aproximação com galerias, lojas especializadas, profissionais de arquitetura, design de interiores e representantes do mercado internacional interessados em produtos autorais e de alto valor cultural.
Transformação da identidade em oportunidade
A presença em Paris é resultado de um trabalho contínuo desenvolvido pelo Sebrae Minas no Vale do Jequitinhonha há mais de 20 anos. Ao longo desse período, a instituição atua no fortalecimento da governança local, da gestão dos negócios, do empreendedorismo, da presença digital, do desenvolvimento de produtos, do design e do acesso a mercados cada vez mais qualificados.
Em 2019, essa estratégia ganhou um novo capítulo com a criação do projeto Identidade e Origem, iniciativa voltada à valorização dos elementos culturais que tornam o Vale do Jequitinhonha único. Dois anos depois, nasceu a Marca Território Vale do Jequitinhonha. Desenvolvida pelo Conselho das Artesãs do Vale do Jequitinhonha, em parceria com a instituição, a iniciativa contribui para divulgar a origem do produto, dar notoriedade à região e estimular a atividade como fonte de renda, aumentando sua valorização no mercado.
Nesse posicionamento, cada escultura deixa de ser percebida apenas como um objeto utilitário para ser reconhecida como um produto autoral, portador de identidade, memória e valor simbólico, características cada vez mais valorizadas por galerias, arquitetos, curadores, colecionadores e consumidores de alto padrão.
“O acompanhamento contínuo realizado pelo Sebrae Minas permitiu elevar o nível de maturidade dos negócios, preparando os artesãos para atender às exigências de mercados mais sofisticados, ampliar sua capacidade produtiva e acessar oportunidades comerciais de maior valor agregado. Para garantir vantagem competitiva nos mercados internacionais, investimos no fortalecimento da qualidade, identidade e narrativa sobre a origem das esculturas”, destaca o presidente do Conselho Deliberativo do Sebrae Minas, Marcelo de Souza e Silva.
Nos últimos anos, estima-se que somente as ações promovidas pelo Sebrae Minas para a valorização do saber local, origem e estratégia de acesso a mercado, geraram um aumento médio de 30% no faturamento, impulsionando a economia local e ampliando as oportunidades para centenas de famílias que vivem do artesanato.
A parceria entre a instituição e a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Sede) integra uma estratégia mais ampla de fortalecimento do artesanato em Minas Gerais, com o objetivo de aumentar oportunidades comerciais, fortalecer a geração de renda, estimular o empreendedorismo e contribuir para preservar um patrimônio cultural que faz parte da identidade mineira.
Histórias que atravessam o oceano
A presença na França será marcada pelo protagonismo de quem mantém viva a tradição do artesanato no Vale do Jequitinhonha. Cinco artesãos acompanharão a programação em Paris, levando consigo suas esculturas e as histórias de vida de suas famílias e comunidades.
Anísia Lima realiza um sonho de expor sua arte para o mercado internacional
Anísia Lima é uma das artesãs que vai representar a comunidade de Campo Alegre. Aos oito anos de idade, observando a mãe trabalhar, ela deu forma às primeiras peças utilitárias e, desde então, não parou mais. Ela conta que a valorização do saber local, origem e estratégia de acesso a mercado, foram muito importantes para a visibilidade do Vale.
“A participação em feiras e eventos nacionais do setor levou minhas bonecas longe. Chegamos a lugares que não imaginávamos, como Recife, Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e tantos outros. As vendas permitiram fazer planos para o futuro, pois quanto mais nossas esculturas são valorizadas, mais a gente sonha. E agora, o meu principal sonho será realizado, que é mostrar meu artesanato fora do Brasil”, comemora.
Alice Costa levará suas miniaturas inspiradas na arquitetura do Vale
A artesã Alice Costa, da comunidade de Cachoeira do Fanado, descobriu a paixão pelo artesanato ainda na infância e conta, emocionada, que jamais imaginou que as pequenas casinhas inspiradas na cultura e nas moradias da sua comunidade atravessariam fronteiras e chegariam a outro continente. “Cada escultura carrega um pedaço da nossa história, da nossa identidade e do carinho com que é feita. Representar o Brasil, a nossa cultura e o trabalho das artesãs em Paris é uma honra imensa. Vou com o coração cheio de alegria, orgulho e responsabilidade, levando comigo a certeza de que os sonhos podem se tornar realidade quando são construídos com dedicação, amor e perseverança. Essa conquista não é apenas minha, mas de toda a nossa comunidade”, ressalta.
Adriana Xavier levará para a França suas esculturas e a história das tantas outras artesãs da região do Vale do Jequitinhonha
Adriana Xavier começou a modelar esculturas de barro aos 10 anos de idade, na Comunidade de Campo Alegre, em Turmalina, no Vale do Jequitinhonha. Para a Maison&Objet, ela enviará bonecas de cerâmica, grandes e pequenas, peça pela qual é mais conhecida em seu trabalho. “Fico muito feliz de representar as mulheres da minha associação e do Vale do Jequitinhonha na França. A gente fica muito orgulhosa de saber que o trabalho da gente está sendo reconhecido internacionalmente. Vou levar para Paris não somente as minhas esculturas, mas a história das 52 mulheres da Associação dos Artesãos de Campo Buriti e de tantas outras artesãs da região”, comemora emocionada.
O Sebrae e o Artesanato do Vale do Jequitinhonha
• Mais de 20 anos de atuação na região;
• Projeto Identidade e Origem, criado em 2019;
• Marca Território Vale do Jequitinhonha lançada em 2021;
• 120 artesãos atendidos;
• Quatro comunidades principais beneficiadas: Campo Alegre, Coqueiro Campo, Santana do Araçuaí e Cachoeira do Fanado
• Aproximadamente R$ 2,5 milhões movimentados em vendas nos últimos anos;
• A última edição da Viagem para a Origem, ação que leva compradores nacionais ao Vale do Jequitinhonha, em 2025, gerou mais de R$ 450 mil em compras diretas e encomendas.



