
Diagnóstico de autismo pode levar até quatro anos no Brasil, aponta estudo do Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe
Revisão mostra que a falta de investigação adequada dos sinais relatados pelas famílias, de rastreio estruturado e de fluxos claros de encaminhamento pode atrasar o acesso de crianças a intervenções e apoios

Curitiba, setembro de 2026 – O caminho entre os primeiros sinais do Transtorno do Espectro Autista (TEA) e a confirmação clínica ainda pode ser longo no Brasil. Uma revisão de estudos liderada pelo Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe identificou esperas de até 49 meses em serviços de nível terciário. Entre os principais entraves estão a falta de investigação adequada das preocupações relatadas pelas famílias, a ausência de vigilância estruturada do desenvolvimento e as dificuldades de encaminhamento para especialistas.
O atraso pode comprometer o acesso a intervenções e apoios em uma fase decisiva do desenvolvimento infantil. Segundo os pesquisadores, muitas famílias percebem os sinais precocemente e procuram os serviços de saúde, mas nem sempre essa preocupação resulta em uma avaliação estruturada ou no encaminhamento necessário.
“Dois ou três anos na vida de uma criança pequena é muito tempo, porque estamos falando de uma fase de intenso desenvolvimento. Quanto mais cedo identificamos as necessidades dessa criança, mais cedo ela pode ter acesso às intervenções”, alerta Mara L. Cordeiro, autora e coordenadora do estudo, neurocientista e pesquisadora do Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe.
A revisão aponta um efeito cumulativo ao longo da jornada de cuidado: a preocupação da família não gera uma ação imediata, oportunidades de rastreio deixam de ser aproveitadas, os encaminhamentos ocorrem tardiamente e as famílias ainda enfrentam filas para chegar aos especialistas. Nesse cenário, a atenção primária acaba tendo participação limitada na identificação inicial do autismo, enquanto o sistema permanece dependente de neurologistas e psiquiatras de serviços terciários.
“A família pode perceber sinais precocemente, mas essa preocupação não necessariamente gera uma avaliação mais estruturada. O que nosso estudo mostra é justamente esse efeito cumulativo: preocupação que não gera ação, oportunidades de rastreio que não são aproveitadas, encaminhamentos tardios e filas”, explica Bianca Sallum, uma das autoras do artigo.
Relato das famílias deve ser ponto de partida
Entre os comportamentos que podem contribuir para o atraso está a normalização dos sinais apresentados pela criança, muitas vezes resumida na ideia de que “cada criança tem seu tempo”. Os pesquisadores ressaltam que a frase pode ser válida para variações esperadas do desenvolvimento, mas não deve encerrar a investigação quando há preocupações dos cuidadores.
“‘Cada criança tem seu tempo’ pode ser uma frase válida quando falamos de variações normais do desenvolvimento, mas ela se torna problemática quando encerra a conversa e substitui uma avaliação adequada”, afirma Sallum.
Para os autores, o problema não deve ser atribuído individualmente aos profissionais que atuam nos postos de saúde ou em consultas pediátricas. Ele reflete falhas mais amplas na capacitação para reconhecer sinais precoces, no acompanhamento do desenvolvimento e na definição de fluxos de encaminhamento.
“Eu não vejo isso como uma falha individual do pediatra ou do profissional do posto de saúde, mas como uma falha do sistema. Muitas vezes falta treinamento para reconhecer os sinais precoces, falta uma vigilância mais estruturada e um fluxo claro de encaminhamento”, complementa Cordeiro.
Meninas e populações vulneráveis permanecem invisíveis nos dados
Além dos entraves na assistência, a revisão identificou lacunas importantes na produção científica brasileira. Alguns estudos analisados tinham amostras compostas por até 97% de meninos, o que limita a compreensão sobre possíveis diferenças na trajetória diagnóstica das meninas com TEA.
Também são escassas as informações sobre raça e sobre pacientes que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente fora do eixo Sul-Sudeste. A ausência desses indicadores dificulta avaliar se crianças negras, indígenas ou pertencentes a grupos socialmente vulneráveis enfrentam barreiras adicionais até o diagnóstico.
“Com esse nível de ausência de dados, nós simplesmente não conseguimos medir adequadamente se crianças negras, indígenas ou pertencentes a determinados grupos sociais enfrentam trajetórias diagnósticas diferentes”, destaca Sallum.
Caminhos para reduzir a espera
O estudo indica que a redução do atraso diagnóstico passa pelo fortalecimento da atenção primária, pela capacitação das equipes e pela adoção de ferramentas estruturadas de vigilância do desenvolvimento e rastreio nas consultas pediátricas. Essas medidas precisam estar associadas a uma rede preparada para avaliar os casos identificados e encaminhá-los com agilidade.
Os pesquisadores reforçam ainda que o relato dos cuidadores deve ser reconhecido como um ponto de partida válido para a investigação clínica. A escuta qualificada das famílias, combinada a protocolos claros, pode evitar oportunidades perdidas e favorecer o acesso mais cedo aos cuidados de que cada criança necessita.
O artigo está disponível aqui.
Sobre o Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno PríncipeO Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe desenvolve pesquisas voltadas à saúde da criança e do adolescente e integra o Complexo Pequeno Príncipe. Com atuação multidisciplinar, busca transformar conhecimento científico em avanços para o diagnóstico, a prevenção e o tratamento de doenças na infância e na adolescência.




