
Ejef dá início ao Curso Preparatório Esperança
Cinquenta alunos selecionados por meio de edital participam da ação afirmativa “Essa iniciativa representa uma luz no fim do túnel, porque venho fazendo várias segundas fases de concursos para juízes, sem êxito. Acredito que o curso trará uma contribuição essencial para que pessoas pardas e negras consigam avançar nas fases do concurso e chegar à posse como juízes. O magistrado exerce um papel de grande valor para a sociedade e pode também promover mudanças sociais. Por isso, a magistratura, para mim, é muito mais que um projeto: é um sonho e uma vocação.” Esse relato é de Michelle Aparecida Acácio Pacheco, de 46 anos, moradora de Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Casada e mãe de dois filhos, ela é um dos 50 alunos que iniciaram, nesta segunda-feira (14/9), o Curso Preparatório Esperança, ação afirmativa do programa “Esperança”, lançado em 18/8 último pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), por meio da Escola Judicial Desembargador Edésio Fernandes (Ejef). O grupo foi selecionado por meio de edital, entre candidatos de todo o País aprovados no Exame Nacional da Magistratura (Enam) na condição de pessoas negras, indígenas ou quilombolas. Semipresencial, com tutoria, encontros síncronos e aulas presenciais, a ação educacional visa à ampliação do acesso e à permanência, na carreira da magistratura, de grupos historicamente sub-representados. Pioneirismo Na abertura da aula inaugural e presencial, no auditório da Ejef, na Capital mineira, o 2º vice-presidente do TJMG e superintendente da Escola Judicial, desembargador Manoel dos Reis Morais, exaltou o caráter pioneiro da iniciativa, explicando que ela surgiu da compreensão de que apenas a igualdade formal, prevista na legislação brasileira desde o início da República, não é suficiente para o enfrentamento de desigualdades históricas: “É necessário que enfrentemos as desigualdades materiais, possibilitando oportunidades para as pessoas que, ao longo da história o Brasil, foram excluídas. Aqui, entendemos que os negros, os quilombolas e os indígenas, por mais de 300 anos, foram marginalizados, e nós não tivemos ações afirmativas para promover um certo nivelamento social, para que todos possam competir nos concursos públicos com uma certa igualdade de condições. Essa é a ideia desse curso preparatório.” Ao se referir ao nome do programa – “Esperança” –, o magistrado citou reflexões do teólogo Leonardo Boff, que faz uma distinção da palavra “esperança”, no sentido passivo de esperar, e do verbo esperançar, que pressupõe ação. De acordo com o desembargador Manoel dos Reis Morais, o programa “Esperança” do Judiciário mineiro compreende o vocábulo como verbo. Coração do programa Ao proferir algumas palavras, a juíza auxiliar da 2ª Vice-Presidência, Aline Damasceno Pereira de Sena, declarou que o curso afirmativo é o núcleo do programa “Esperança”, que busca promover a equidade racional no Sistema de Justiça por meio da educação, da formação contínua, da pesquisa e do acesso afirmativo à magistratura: “Considero que seja o coração, porque se trata de uma iniciativa que tem o poder de realmente dar efetividade ao compromisso que foi assumido pelo Estado brasileiro de assegurar o combate ao racismo e a igualdade substantiva entre todas as pessoas.” Ao parabenizar e dar boas-vindas a todos os candidatos aprovados no Enam e selecionados para o curso preparatório, a juíza Aline Damasceno ressaltou, entre outros pontos, que os professores convidados do programa “Esperança” têm experiência em docência e já atuaram como orientadores de juízes recém-ingressos na magistratura mineira: “Espero que todos estejam bem engajados e que tenhamos ótimos resultados; resultados que sejam visíveis, palpáveis, e que, em breve, vocês, alunos e alunas, estejam aqui como magistrados e magistradas, dando continuidade a esse ciclo virtuoso de promoção de igualdade e atuando como formadores na escola judicial e como futuros orientadores na próxima edição do Programa Esperança.” A 3ª vice-presidente do TJMG, desembargadora Shirley Fenzi Bertão, que prestigiou a aula inaugural, parabenizou a Ejef pela iniciativa e observou que ações afirmativas “nada mais são do que um resgate de um débito estrutural que o Brasil possui.”: “Precisamos ter consciência de que o que estamos fazendo aqui é o mínimo, e com muito atraso.”. A magistrada é presidente do Comitê Interinstitucional sobre Povos Tradicionais de Minas Gerais (Jus-Povos), criado para garantir e efetivar os direitos de povos e comunidades tradicionais do Estado, reunindo diversas instituições do Sistema de Justiça. Aula inaugural A diretoria executiva de Desenvolvimento de Pessoas (Dirdep) da Ejef, Ana Paula Andrade Prosdocimi, também destacou a qualificação dos docentes que irão participar do curso preparatório. Ela agradeceu a eles e também, muito especialmente, às equipes da Escola Judicial mobilizadas para a organização do curso. A servidora ressaltou ainda as estratégias pedagógicas e tecnológicas que serão adotadas na ação educacional. Entre os recursos, ela citou o uso da Inteligência Artificial (IA), que permitirá que cada um siga uma trilha pedagógica personalizada. Os trabalhos se iniciaram com a juíza da Vara Criminal e da Infância e da Juventude da Comarca de Viçosa, Isadora Nicoli da Silva, que contou um pouco de sua trajetória e apresentou o curso. Entre outros aspectos, a magistrada destacou que as ações afirmativas, como o Curso Preparatório Esperança, são mecanismos de reparação social, instrumentos utilizados na trajetória de concurso, mas que não retiram os diversos obstáculos que se apresentam para as pessoas negras, indígenas e quilombolas. Na sequência, foram proferidas aulas em torno dos seguintes temas: “Inteligência Artificial aplicada à preparação para concursos públicos – boas práticas”, pelo coordenador do Grupo Executivo Negocial e de Governança em Inteligência Artificial (Gex-IA) do TJMG, juiz Rafael Niepce Verona Pimentel; “Elaboração de sentenças criminais”, pelo juiz Rodrigo de Carvalho Asumpção; e “Elaboração de sentenças cíveis”, pelo juiz Maurício Ferreira Cunha. Esperança Garcia Ao longo da ação educacional, que se estende até 9/11, os participantes serão capacitados para a elaboração de respostas discursivas e sentenças judiciais, para que demonstrem domínio técnico, capacidade argumentativa, adequada fundamentação jurídica e observância da jurisprudência dos tribunais superiores. O programa “Esperança”, do qual o curso preparatório é um dos eixos, homenageia, em seu nome, Esperança Garcia, reconhecida como a primeira advogada do Brasil. Mulher negra e escravizada, ela escreveu uma carta ao governador de São José do Piauí, em 6/9 de 1770, denunciando os maus-tratos de que ela, seu filho e seus iguais eram vítimas, e solicitou providências. Descoberto pelo antropólogo e historiador Luiz Mott, professor na Universidade Federal da Bahia (UFBA), o documento passou a ser considerado uma petição, dando origem ao “Dossiê Esperança Garcia: símbolo de resistência na luta pelo Direito”, produzido em 2017 pela Comissão da Verdade da Escravidão Negra da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Piauí. O documento serviu de base oficial para que a OAB Nacional, em novembro de 2022, reconhecesse Esperança Garcia como a primeira advogada do Brasil. Saiba mais sobre o programa “Esperança” da Ejef.Confira matéria sobre o lançamento da iniciativa. Diretoria Executiva de Comunicação – Dircom Tribunal de Justiça de Minas Gerais – TJMG (31) 3306-3920 imprensa@tjmg.jus.br instagram.com/TJMGoficial/ facebook.com/TJMGoficial/ twitter.com/tjmgoficial flickr.com/tjmg_oficial tiktok.com/@tjmgoficial |



