Saúde

Enquanto discutimos inovação na saúde, outros países já reinventaram o hospital

Por Edgard Nienkotter, CEO da Hexa IT

Recentemente, participei de uma visita técnica ao Second Affiliated Hospital da Zhejiang University (SAHZU), na China, e posso dizer que ao longo da minha trajetória na área de tecnologia para saúde, visitei instituições consideradas referência em diversos países, mas poucas experiências me fizeram voltar ao Brasil com uma sensação tão incômoda quanto essa.

Não porque vi equipamentos futuristas ou robôs circulando pelos corredores. Esse tipo de imagem costuma chamar atenção, mas não foi o que mais me impressionou. O que realmente me inquietou foi perceber que enquanto boa parte do mercado ainda discute quando iniciar sua transformação digital, existem hospitais que simplesmente já operam em outro paradigma.

Foi ali que entendi que estamos fazendo a pergunta errada. Ainda debatemos como digitalizar hospitais, mas eles já discutem como escalar um sistema de saúde inteiramente digital. Essa diferença parece sutil, mas representa um abismo.

O SAHZU não funciona apenas como um hospital altamente tecnológico, ele opera como uma plataforma de saúde e isso significa que a tecnologia passou a ser a infraestrutura sobre a qual todo o modelo assistencial é construído.

A jornada do paciente acontece de forma contínua, em que agendamento, atendimento, exames, diagnósticos, acompanhamento e retorno fazem parte de um fluxo único, integrado e orientado por dados. Não existem ilhas de informação nem processos paralelos competindo entre si.

A inteligência artificial também não ocupa o papel de protagonista que costuma ter nas apresentações corporativas, ela simplesmente trabalha. Está presente na triagem, no apoio ao diagnóstico, na priorização dos atendimentos e na automação de processos. Sem espetáculo e marketing, apenas entregando eficiência.

Outro aspecto que chamou minha atenção foi o conceito de Internet Hospital. No Brasil, muitas instituições ainda enxergam o atendimento remoto como uma alternativa para situações específicas ou uma extensão do atendimento presencial. Na prática, ele continua sendo tratado como um serviço adicional.

Na China, essa lógica já foi superada com o atendimento físico e o digital fazendo parte da mesma operação. O hospital acompanha o paciente antes, durante e depois da consulta presencial, criando uma relação contínua de cuidado. O resultado é um sistema mais acessível, mais eficiente e capaz de atender um número muito maior de pessoas sem depender exclusivamente da expansão da estrutura física.

Essa talvez seja a principal diferença entre os dois modelos, enquanto o hospital tradicional cresce construindo novos prédios, contratando mais pessoas e aumentando sua capacidade física, o hospital orientado por plataformas consegue ampliar sua operação por meio da padronização dos processos, da conectividade e da tecnologia. É uma mudança de lógica e mudanças de lógica costumam redefinir mercados inteiros.

Tecnologia não transforma hospitais, mas estratégia transforma

Essa experiência também me levou a refletir sobre um erro que frequentemente cometemos no Brasil: acreditar que transformação digital significa comprar novas tecnologias. Porque não significa, a tecnologia é apenas a consequência de uma estratégia bem definida.

O que vi no SAHZU foi um alinhamento raro entre gestão, processos, infraestrutura tecnológica e cultura organizacional. Nada parecia ter sido implementado apenas porque era inovador. Cada solução existia para resolver um problema operacional concreto e esse talvez seja o maior aprendizado.

Esse ponto ganha ainda mais relevância quando observamos os desafios enfrentados pelo sistema de saúde brasileiro. A demanda cresce continuamente, os custos aumentam, há escassez de profissionais em diversas regiões, pressão por produtividade e necessidade permanente de melhorar a experiência do paciente.

Diante desse cenário, insistir em modelos operacionais concebidos para outra realidade deixa de ser apenas uma limitação administrativa e se torna um risco estratégico.

O Brasil ainda tem tempo, mas a janela está diminuindo

É claro que Brasil e China vivem contextos econômicos, regulatórios e sociais bastante diferentes. Não faz sentido imaginar uma simples replicação do modelo chinês, mas também seria um erro usar essas diferenças como justificativa para permanecer na inércia.

A grande lição daquela visita foi entender a velocidade com que o restante do mundo está redesenhando a forma de prestar assistência. Enquanto discutimos projetos-piloto, outros países já operam em escala. Enquanto celebramos iniciativas isoladas, eles reorganizam todo o sistema em torno dos dados. Enquanto ainda tratamos inovação como diferencial competitivo, ela já se tornou requisito básico para manter a sustentabilidade das organizações.

Voltei da China convencido de que o futuro da saúde não será definido por quem investir mais em tecnologia, mas por quem conseguir abandonar modelos que já não respondem aos desafios atuais.

Essa talvez seja a decisão mais difícil para qualquer liderança, porque exige desapegar de processos que durante muitos anos funcionaram bem. Mas a história mostra que setores inteiros deixam de existir quando passam tempo demais aperfeiçoando o passado, e na saúde esse risco já deixou de ser uma hipótese e começou a acontecer.

Sobre Edgard Nienkotter

É um executivo de tecnologia com mais de 19 anos de experiência em vendas, operações e segurança da informação atuando em integradoras multinacionais. Atualmente ocupa o cargo de CEO na Hexa IT, onde lidera iniciativas de transformação digital, governança de TI e adoção de arquiteturas de cibersegurança para clientes dos mais diversos segmentos.

Sobre a HEXA IT

A HEXA IT é uma das maiores provedoras de soluções de TI do Brasil, especializada em Segurança da Informação, Conectividade e Infraestrutura, Sistemas Cloud, Centro de Serviços e Operações (SOC e NOC), Professional Services e alocação de profissionais.

Presente em todo o território nacional, a empresa está há dez anos no mercado, entregando soluções que aceleram a transformação digital nas empresas, reduzem custos e aumentam a eficiência e produtividade dos processos.

Edgard Nienkotter, CEO da Hexa IT
Enquanto discutimos inovação na saúde, outros países já reinventaram o hospital

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