O ciclo de três meses de alta do diesel: como a tensão geopolítica chegou ao caixa do frotista brasileiro
Levantamento da Gestran, sistema de gestão de frota, mostra salto de quase 30% no pico do aumento, que agora dá sinais de desaceleração, ao fechar o quadrimestre do ano com alta de 17,68%

Os impactos econômicos da guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, no Oriente Médio, chegaram ao caixa dos frotistas brasileiros. Um levantamento da Gestran, sistema de gestão de frotas, mostra que, em um intervalo de praticamente três meses (89 dias), o preço do diesel adquirido nos postos de combustível chegou a ter alta de 28,99%. Depois desse pico, o aumento desacelerou – mesmo assim, o primeiro quadrimestre do ano encerrou com o diesel custando 17,68% mais caro.
O estudo foi feito a partir do consumo de combustível dos clientes atendidos pela plataforma da Gestran. Leva em conta o diesel S10, que se diferencia do comum ao proporcionar melhor desempenho do veículo. Tem como base o preço médio de R$ 5,80 o litro, apurado em 12 de fevereiro, portanto, duas semanas antes do início dos ataques dos Estados Unidos e Israel sobre o Irã, em 28 de fevereiro.
Menos de uma semana depois, a partir de 4 de março, tem-se início o período denominado pelo estudo como o de “escalada” no valor do combustível. “Em 17 dias, o preço médio saltou de R$ 5,92 para R$ 7,30 – um aumento de R$ 1,38 por litro. Apenas em 7 de março, o preço subiu 3,13% em um único dia”, descreve o levantamento da Gestran.
O “pico” ou “platô”, conforme classifica o estudo, deu-se entre 21 de março e 10 de abril. O estudo detalha: “Por 21 dias consecutivos, o preço se manteve acima de R$ 7,29 – um patamar inédito no ano. A média do platô (R$ 7,36) é 26,9% superior à média da fase 1. O pico de R$ 7,42 foi registrado em 6 de abril”.
A partir de 11 de abril, e nos 30 dias subsequentes, verificou-se uma fase de “correção” ou “movimento de alívio”. “O preço iniciou um movimento descendente, fechando o período [em 11 de maio] em R$ 6,83. Apesar da queda de 7,96% em relação ao pico, o preço final ainda é 17,68% superior ao patamar pré-crise”, sublinha o levantamento.
IMPACTO FINANCEIRO AO FROTISTA
O estudo da Gestran buscou apurar quanto a volatilidade constatada significa, em reais, para uma operação real de frota.
Foi feita, então, uma simulação aplicada sobre uma frota representativa de 50 caminhões (50 cavalos rodoviários, isto é, sem a carreta), com consumo de 6 mil litros por mês cada (portanto, 300 mil/mês, no total da frota).
O custo mensal de abastecimento em fevereiro, sem os efeitos do conflito no Oriente Médio, foi de R$ 1,740 milhão. Em abril, R$ 2,147 milhões. Portanto, um aumento de gasto de R$ 407,1 mil, assinala o levantamento.
Na avaliação do CEO da Gestran, Paulo Raymundi, o encarecimento do diesel na ponta, para o frotista, é resultado da combinação de três fatores. São eles a tensão geopolítica no Oriente Médio, o reajuste de preços promovido pela Petrobras em meados de março (de R$ 0,38 o litro) e o aumento do custo do diesel importado.

Paulo Raymundi, CEO da Gestran
“O conflito pressionou o petróleo Brent acima de US$ 90 o barril em março, com picos próximos a US$ 110, o maior patamar desde 2023. Já o reajuste da Petrobras foi repassado ao consumidor final ao longo das semanas seguintes, exatamente o padrão observado no nosso levantamento. Além disso, de 25% a 30% da demanda nacional é atendida por diesel importado”, argumenta Raymundi.
O CEO ressalta que o comportamento observado na base de dados da Gestran está alinhado com os indicadores nacionais reportados por organizações como Agência Nacional de Petróleo (ANP), Edenred Ticket Log, Veloe/Fipe e Mundo Logística no mesmo período. “Isso reafirma a representatividade de nossa amostra”, sublinha.
O especialista finaliza, sintetizando: “O período capturado pela base Gestran mostra com clareza o ciclo completo: 20 dias de calmaria, 17 dias de escalada, três semanas de pico sustentado e 31 dias de correção parcial. É um retrato fiel da realidade que os gestores de frota brasileiros viveram entre fevereiro e maio”.
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