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O fim da confiança e a identidade como novo perímetro de segurança

*por Domingo Montanaro

No cenário atual de cibersegurança, ostentar infraestrutura robusta deixou de ser diferencial competitivo para ser um pré-requisito muito básico de sobrevivência. Enquanto o Brasil enfrenta mais de 753,8 bilhões de tentativas de ataques registrados em 2025, o mercado começa a entender que o investimento em tecnologia, isoladamente, não resolve a equação. De acordo com o Gartner, até 2026, organizações que priorizarem seus investimentos em segurança com base em gestão contínua de exposição terão três vezes menos probabilidade de sofrer uma violação, 

O dado mais inquietante, contudo, não reside nos firewalls. Está no comportamento! A principal porta de entrada para a imensa maioria dessas invasões não explora falhas complexas de código, mas a confiança humana.

Historicamente, as empresas investiram em muros digitais. Mas, em um mundo de nuvem e trabalho híbrido, o perímetro sumiu. Segundo a McKinsey, a convergência de tecnologias como IA generativa e cloud computing exige que a cibersegurança seja tratada como uma capacidade organizacional estratégica. Hoje o perímetro é a identidade. Incidentes de segurança começam com ações cotidianas dos usuários, o que torna as pessoas o principal vetor de risco nas organizações. Erros simples expõe sessões e a desatenção – mais do que o investimento em treinamentos – é um problema persistente. 

Nesse contexto, o conceito de Zero Trust se posiciona como uma necessidade vital. A filosofia é radical e define que cada solicitação de acesso deve ser autenticada, autorizada e criptografada continuamente, não importa a origem.  A adoção dessa filosofia não é uma escolha técnica, mas uma decisão de negócios. Segundo o ISC, empresas que implementam arquiteturas de confiança zero conseguem reduzir o impacto financeiro de violações de dados em cerca de 40%, pois limitam o raio de explosão de ataques. Se os atacantes conseguem operar dentro dos sistemas, como se fossem usuários legítimos, reduzem a eficácia dos mecanismos tradicionais. 

Já atuei em casos em que invasores permaneceram por 190 dias no ambiente corporativo sem serem identificados, esperando o momento certo para agir. A entrada foi viabilizada por uma falha humana aparentemente simples, mas a consequência foi grave. O custo médio de um ataque cibernético é de cerca de 5 milhões de dólares, sem considerar os impactos indiretos, a exemplo de interrupção operacional e danos à reputação. Em ambientes industriais e infraestruturas críticas, os efeitos podem ser ainda mais severos. A manipulação de sistemas que afetam operações energéticas já causou apagões e alteraram processos produtivos, com potencial de colocar vidas em risco.

Para mudar o jogo, a chave está na cultura organizacional. A cyber-resiliência, capacidade de antecipar, resistir e se recuperar de ataques é um impulsionador de valor para os acionistas. Isso exige três pilares:

  1. A segurança deve ser integrada ao fluxo de trabalho, onde cada usuário entende que é um sensor ativo na rede. Somente a higiene digital será capaz de mudar o jogo em que o erro humano viabiliza quase 70% das violações.
  2. Implementar gestão de acessos privilegiados e autenticação multifatorial como proteção da própria autonomia do colaborador
  3. A liderança precisa ser testada em cenários de war gaming, de modo que possam mostrar como decidiria em ambientes sob pressão que separa as empresas que sobrevivem das que colapsam.

A cibersegurança moderna é um esporte em equipe. Enquanto a gestão de identidades e o comportamento humano não forem tratados como pilares estratégicos de negócio, continuaremos oferecendo aos criminosos o caminho de menor resistência. A tecnologia é o meio, mas a resiliência é, e sempre será feita por pessoas.

* Domingo Montanaro, Fundador da Ventura e Vice-presidente de Cibersegurança da Nava

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